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A Cidade que Respira Barro

  • 20 de jul.
  • 10 min de leitura

Atualizado: 23 de jul.

Com a Indicação Geográfica, profissionais do artesanato de Santana de São Francisco-SE vislumbram maior reconhecimento de sua arte secular.




Em 2024, o município sergipano de Santana do São Francisco, localizado na região do Baixo São Francisco, há cerca 117 km da capital, conquistou uma certificação rara no artesanato brasileiro: a Indicação Geográfica (IG). O reconhecimento, concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), colocou o pequeno município em uma nova posição no mapa do artesanato nacional.


A Indicação Geográfica funciona como um selo de origem ou de forte relação entre um produto e o local em que é produzido. Esse selo é reconhecido pela modalidade de Indicação de Procedência (IP), que se dá quando uma região se torna conhecida como centro de produção ou extração daquele produto. No caso de Santana, o barro, a técnica e a tradição dos artesãos passaram a carregar também um reconhecimento oficial.


Em Sergipe, somente outro município recebeu o selo de Indicação Geográfica. Em Divina Pastora, localizada há 38 km ao norte de Aracaju, a renda irlandesa – técnica artesanal secular feita com agulha e linha a partir de um cordão chamado lacê – foi a primeira forma de produção artesanal a principal responsável por trazer esse título para o estado, sendo considerada um Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).


Para aquisição do IG, é necessário que uma peça de artesanato que represente a cidade seja submetida a uma curadoria para analisar se a obra corresponde aos critérios exigidos pelo INPI. No caso de Santana, o artesão Douglas Moura precisou se tornar um representante legítimo dos profissionais da cidade, o que o fez, em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), fundar uma associação exclusiva que representasse essa categoria.


Diante desse novo cenário, impõe-se um questionamento: o IG vai, de fato, fazer diferença na vida dos artesãos? Entre o reconhecimento oficial e a realidade das pessoas que sobrevivem do barro, nós buscamos compreender se o selo pode trazer real valorização, renda e visibilidade ou se seus impactos possuem limitações.


O processo que conduziu Santana do São Francisco à obtenção do IG e, por fim, a conquistar o reconhecimento oficial para o seu artesanato de cerâmica durou cerca de quatro anos. Sendo esse um caminho trilhado além do barro, das mãos e dos tornos, ocorrendo dentro das câmaras e órgãos federais


Linha temporal da chegada do IG ao artesanato de Santana.

Vídeo: Alice Prado.


Antes da arte vem o barro


Para entender como se dá toda a dinâmica desse fazer artístico que levou o pequeno município do baixo São Francisco a ser intitulado Capital Sergipana do Artesanato’’, é preciso considerar a cadeia produtiva que viabiliza a existência da atividade e compreender que uma peça passa pelas mãos de muitas pessoas, não apenas as do artesão que a modela.

Mas o que há por trás desse selo de reconhecimento?

O caminho para a Indicação de Procedência passa justamente pela relação entre o produto e o seu local de origem. Aqui, o personagem principal é o barro, que percorre diferentes etapas até chegar ao produto final comercializado: peças ornamentais, artigos religiosos, utensílios domésticos, entre outros.

As jazidas, locais de extração do barro, estão localizadas em terrenos privados da cidade de Santana, situadas especificamente nas áreas de várzeas da região do Rio São Francisco, que são cedidos aos artesãos.


Amoroso, extrai o barro que dará origem aos artesanatos.

Vídeo: Alice Prado.


José Cerilo, mais conhecido como Amoroso, é oleiro e um dos responsáveis pela extração do barro. Ele nos explica como os saberes tradicionais fazem parte da sua rotina e influenciaram sua vida como artesão. “Aprendi com um colega, pratiquei pra fazer o mesmo processo e hoje sou artesão. Minha mãe trabalhava na lagoa como uma mulher da lagoa, eu pivete ajudava ela, antigamente, há uns 35 anos atrás”, conta.


Nossa equipe de reportagem acompanhou Amoroso por todo o processo de extração do barro dentro da jazida. A primeira etapa começa pela Pinicada. Nela, o barro é retirado das bordas das crateras feitas no solo das jazidas. A segunda etapa é conhecida como Aprontar, momento em que o barro é pisoteado até ficar totalmente pilado. A etapa final da extração é chamada de Bolar, termo usado para se referir ao instante em que o barro é moldado em formato de “bolas” ou esferas, com o intuito de facilitar o transporte feito pelos carroceiros até as olarias e ateliês. 


Esse transporte é feito exclusivamente dentro da própria cidade e comercializado para os produtores locais. Os artesãos dizem que o barro de Santana tem suas especificidades e é próprio para a utilização na produção da cidade. Segundo eles, a comercialização desse barro para outros locais se faz inviável pela própria natureza do material.


O professor e doutor Euler Araújo, do Departamento de Engenharia de Materiais, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), e também integrante de um projeto de extensão relacionado ao Baixo São Francisco, explica que o barro da região de Santana é muito “plástico”.


O geólogo Marcio Vinícius Santana acrescenta que o barro de Santana faz parte do grupo II, de um total de 3 grupos (tipos) de argilas do estado de Sergipe usadas para cerâmica, de acordo com o trabalho da pesquisadora Carolina Mangieri Prado, de 2011. Este grupo se diferencia dos demais por apresentar maiores teores de Óxido de Ferro (Fe2O3), e por conter predominantemente óxidos de Alumínio e Silício.


Essa plasticidade citada pelo professor Euler é a capacidade que o barro tem de se deformar permanentemente quando submetido a uma força. Segundo ele, essa característica também provoca problemas de choque térmico nas peças.


“Por possuir muita plasticidade, ele tem problemas de choque térmico, o que faz com que as panelas produzidas com o barro da região não sejam adequadas ao uso em fogo direto. A partir de certo tempo, essas panelas trincam, acabam rachando com o uso no fogo, o que reduz bastante a qualidade do produto. É um produto que pode ser usado só algumas vezes”, explica.


Depois do transporte, o barro chega até as olarias, oficinas em que passa pela construção das obras de artesanato em cerâmica. Nesses espaços, o material passa pelas mãos do oleiro, que utiliza o torno para criar e moldar as peças. Logo em seguida, elas seguem para os fornos convencionais, à lenha, onde ocorre a queima das peças, antes de irem para a etapa da pintura.


Cadeia produtiva do fazer artesanal de Santana


Entre a tradição e os desafios


É justamente na etapa da queima que surge um dos principais problemas enfrentados pelos artesãos e pela população local: o excesso de fuligem e fumaça provocados pela queima do barro nos fornos convencionais, que se tornou uma questão de saúde pública. 


Wilson Capilé é marombeiro, um artesão dedicado à produção de peças de grande porte. Ele nos conta que, apesar dos riscos, os artesãos acabam se acostumando com o calor e a fumaça dos fornos convencionais. “O nosso organismo tem a capacidade de se adaptar a tudo que é ruim e que é bom. […] Quem vem de fora, que não tem o hábito nem o costume disso daqui, vai sofrer as consequências…”, afirma.  


Segundo Capilé, quando há queima, a rua inteira fica tomada por fumaça e fuligem. A situação é sentida por toda a população. O morador e secretário adjunto da cultura do município, Carlos Eduardo Menezes, relata que sofre com os efeitos da fumaça desde a infância. “Eu sofro de rinite. Tinha uma cerâmica lá atrás da minha casa que era um fumaceiro”. Ele continua: “A fumaça atrapalha um pouco a respiração. Meu nariz sentia, começava a queimar e depois a corizar”.


Eduardo também lembra que, alguns anos atrás, moradores utilizavam as redes sociais para reclamar da quantidade excessiva de fumaça. Apesar das reclamações, os artesãos relatam que não têm muito o que fazer a respeito, já que o uso dos fornos é necessário para produzir as peças e garantir a própria renda.


A partir dessa realidade, métodos alternativos começaram a ser desenvolvidos para tentar minimizar os impactos causados pela queima tradicional do barro. Nesse momento surgem os fornos ecológicos, que originaram-se, inicialmente, a partir de uma construção coletiva, desenvolvida e orientada pelo ceramista Nicodemos Farias, de Brasília. Diante disso, o Ministério Público do Trabalho de Sergipe (MPT-SE), em setembro de 2025, aprovou um projeto que visa a construção e distribuição de 130 fornos ecológicos para os artesãos do município.


As diferenças dos fornos ecológicos para os tradicionais não se limita somente a uma nomenclatura, elas se expressam sobretudo em seu modelo e funcionamento. Feito a partir de tijolos de argila, o novo forno possui uma estrutura fechada em formato de cúpula e uma chaminé bem alta. Para além da diminuição da emissão de poluentes, o forno também promete melhorar a qualidade da produção das peças, que por estarem agora em um ambiente abafado e propício para o calor, queimam de forma mais rápida e eficiente.


O professor Euler afirma que devido ao modo tradicional de se produzir a cerâmica artesanal, já enraizado entre os artesãos, continua existindo certa resistência em aderir a essa substituição. Entretanto, ele acredita que o novo forno possa ser gradualmente aceito dentro do cotidiano da produção. Sobre o funcionamento do novo forno, ele diz: "[O forno] tem um desenho que permite um rendimento energético maior. Retém mais o calor e o distribui mais uniformemente".


O Reconhecimento do Artesão


Peças produzidas representam uma tradição


Para que um artesão possa estar apto apara receber um forno ecológico, nessa primeira etapa, é necessário o cumprimento de alguns critérios, sendo um deles o reconhecimento oficial como artesão - que só é feito a partir da aquisição da Carteira Nacional da Artesã e do Artesão


O documento é fornecido pelo Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (SICAB). Trata-se de um programa do governo federal responsável pelo planejamento e implementação de ações e políticas públicas dentro do setor artesanal.

No caso de Santana do São Francisco, a seleção para a aquisição dos fornos foi realizada em duas etapas: inicialmente, os artesãos com cadastro ativo no SICAB e, após essa listagem, entre os 189 cadastrados, a ordem de prioridade para a seleção dos beneficiários seguiu o critério de menor renda.


Para conseguir a carteira do artesão, o indivíduo interessado em obtê-la não deve somente participar da produção das peças. Ele deve, além disso, ter idade superior a 16 anos, apresentar uma cópia de seus documentos de identificação civil e entregar peças artesanais de autoria própria para uma avaliação de um servidor público vinculado à Coordenação Estadual do Artesanato.


Desde 2020, o SICAB oferece também a Carteira Nacional da Mestra Artesã e do Mestre Artesão. Os critérios para consegui-la são semelhantes à carteira de artesão, entretanto, os candidatos devem possuir pelo menos dez anos de atuação no Brasil e comprovar a relevância de seu ofício.


Com essa iniciativa de implementar o uso dos fornos ecológicos dentro do cotidiano do fazer artesanal, espera-se não somente uma melhora relacionada a diminuição da emissão de poluentes na atmosfera da cidade de Santana do São Francisco, mas a garantia do bem-estar e da saúde dos artesãos e a qualidade das peças produzidas.


Além dessa ação do MPT-SE, o Dr. Euler aponta que há também a existência de um projeto de extensão, financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica (FAPITEC), que já estuda a possibilidade de uma “purificação” desse barro extraído em Santana. O trabalho intitulado: Educação Vocacional e Agregação de Valor a Produtos Cerâmicos do Baixo São Francisco visa suscitar uma educação tecnológica na produção de cerâmicas vermelhas, que tem também a missão de incentivar a participação feminina na ciência e no estudo da produção técnica do artesanato – até então as mulheres trabalham, predominantemente, na parte de finalização, envernização e pintura das peças de cerâmica.


A iniciativa pretende mostrar as potencialidades da indústria de cerâmica vermelha, além de tentar identificar problemas que os artesãos de Santana enfrentam para a fabricação dos produtos. Entre essas dificuldades, o projeto aponta principalmente a utilização dos fornos convencionais, operados à lenha, que poderiam ser substituídos por fornos elétricos ou movidos a gás.


Além de reduzirem os impactos ambientais e na saúde dos moradores locais, a utilização desses fornos também pode potencializar a produção e viabilizar o desenvolvimento de peças que possam ser aquecidas, como panelas de barro produzidas com o próprio barro do município, o que no momento é inviável devido à característica de plasticidade da matéria-prima extraída em Santana. Será a partir disso que o projeto estudará formas de “purificar” e diminuir essa plasticidade, o que fará com que as obras produzidas a partir do barro de Santana suportem serem submetidos à maiores temperaturas.


Existe uma desilusão muito grande da nova geração sobre o ofício de oleiro. Exige muito trabalho e o material tem baixo valor agregado, o que afasta os mais novos. A nova geração não quer mais se envolver com esse ofício, e isso é muito triste, pois a cerâmica daquela região tem um significado muito importante para o estado de Sergipe. O processo do barro e o fazer tem uma grande propensão a se perder se não existirem intervenções. Euler Araújo

Douglas Moura, dono da peça 001, que concedeu o título de IG a Santana,  concorda com essa alegação da mudança comportamental dos jovens e alerta que de fato está havendo um desinteresse das novas gerações em seguirem com a tradição do artesanato de barro – um fazer que era inteiramente familiar e transmitido geracionalmente. Como relatado pelo oleiro e dono da olaria Beira Rio, José Francisco, que diz: “Isso aqui vinha de pai pra filho né? Sempre a família envolvida. Porque eles começaram primeiro e a gente vai acompanhando. Eu mesmo já estou na atividade há mais de 30 anos, desde criança”.


Ainda na análise de Douglas, ele defende que essa apatia do público jovem se dá, também, pela falta de incentivo educacional nas escolas acerca do universo artesanal. Uma vez que, nos dias atuais, os adolescentes passam mais tempo nos centros educacionais. O artesão afirma que deveria existir, nas instituições de ensino localizadas no município, uma disciplina prática que transmitisse os saberes dos artesãos e ensinasse como realizar a produção do artesanato, em suas diversas etapas produtivas.


Para que essa tradição secular não deixe de existir, o Senac surge como uma esperança para aproximar as novas gerações do artesanato de cerâmica. No dia, 26 de junho de 2026, foi lançada a pedra fundamental do novo centro de Educação Profissional do Senac em Santana do São Francisco, unidade que nasce com a proposta de unir a cerâmica de barro local à inovação, especialmente por meio da vitrificação, técnica voltada à aperfeiçoação do barro.


Mais do que um reconhecimento simbólico, a Indicação Geográfica já começa a produzir mudanças concretas em Santana do São Francisco. Projetos de pesquisa, investimentos em novas tecnologias, a implantação dos fornos ecológicos e a construção do Centro de Educação Profissional do Senac demonstram que o selo abriu novos caminhos para uma tradição secular. 


Mas compreender a cidade que respira barro exige olhar para além das olarias e das peças expostas. A história dessa tradição ainda desperta controvérsias, a dimensão econômica da atividade permanece cercada de incertezas e os artesãos continuam convivendo com desafios que o selo, sozinho, não é capaz de resolver. Porque, em Santana, conhecer o barro também é investigar as histórias que ele preserva  e as que ainda permanecem escondidas.


Das peças utilitárias aos objetos decorativos



Elementos Gráficos e Infografia:


Designer:

Alice Prado


Elementos Gráficos:

Canva


Fontes de Informação:

- Assembleia Legislativa de Sergipe

- Ministério Público do Trabalho de Sergipe (MPT-SE)

- Secretaria do Estado de Sergipe

- Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae)


EXPEDIENTE


Apuração:

Alice Prado, Fabiana Santiago, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos


Reportagem:

Alice Prado, Fabiana Santiago, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos


Edição:

Alice Prado, Fabiana Santiago, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos


Fotografia:

Fabrício Fernandes


Webstories-


Produção:

Fabiana Santiago


Redação:

Alice Prado


Roteiro:

Fabrício Fernandes


Fotografia:

Fabiana Santiago e Fabrício Fernandes


Vídeo:

Fabrício Fernandes


Infografia-


Apuração:

Fabrício Fernandes


Design e edição:

Ana Alice Prado


Audiovisual/Redes Sociais-


Defesa de Pauta


Roteiro:

Fabrício Fernandes


Reportagem:

Fabiana Santiago e Fabrício Fernandes


Captação:

Alice Prado e Fabrício Fernandes


Edição:

Fabrício Fernandes


Reels


Roteiro:

Thaila Ramos


Captação:

Alice Prado, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos


Edição:

Thaila Ramos

 
 
 

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ZONA CONTEXTO é uma produção laboratorial EXCLUSIVA, da disciplina Laboratório de Jornalismo Integrado I, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.

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