O caminho do dinheiro
- 20 de jul.
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Atualizado: 23 de jul.
Como Sergipe financia o São João e quem realmente ganha com a festa

Erivaldo Bernardo, 64 anos, conhecido carinhosamente como “Seu Bernardo”, nasceu e vive em Aracaju. Ele mora no bairro Santa Maria, é pai de dois filhos e avô de quatro netos. Começou como comerciante em 1995, mas foi em 2008, após perder o emprego e se desiludir com a violência de onde vive, que abraçou a vida de ambulante. Desde então, segue acompanhando os eventos culturais da Grande Aracaju, principalmente os mais “alternativos”, comercializando bebidas, cigarros e doces com sua carrocinha — um investimento de quase cinco mil reais.
Na rotina do São João, ele acorda às 6h30 da manhã, prepara a mercadoria, sai de casa por volta das 14h, enche o carrinho de gelo e chega cedo aos locais de venda para garantir um bom ponto. O trabalho é duro e se estende até às 3h da madrugada, com apenas quatro ou cinco horas de sono para a labuta do dia seguinte. A alimentação fica desregulada e a saúde cobra o preço, mas, como ele mesmo diz: “Enquanto o sangue tá quente, você toma uma porrada e não sente”.
O melhor evento, na avaliação dele, é o Arraiá do Povo: “a melhor festa para todos os ambulantes”. Mas ele não foi sorteado esse ano e quando conseguiu trabalhar no Forró Caju, não gostou. A diferença, explica, está na organização e no público. Ainda que a Orla atraia um público que chega para ver o artista famoso, ele não costuma consumir através dos ambulantes. Esse público geralmente traz toda bebida de casa, como uísques e energéticos. Assim, são os dias de arrocha e as festas de bairro que fazem a roda girar.
Um Pouco de História
O forró nasceu nos bailes do interior, no fim do século 19, quando ainda era chamado de "forrobodó". Só ganhou contornos nacionais em 1958, quando Luiz Gonzaga levou o ritmo para o rádio e o transformou em símbolo do nordeste, região cuja imagem ainda se formava, eliminando a dicotomia estabelecida entre “norte” e “sul”. Em Sergipe, o som virou tradição de quintal: famílias se reuniam ao redor da fogueira, assavam milho e dançavam o pé-de-serra, sem estrutura, sem patrocínio ou palco. Foi no fim dos anos 1980 que o cantor sergipano Rogério, com a música "Chamego Só", ajudou a consagrar o estado como o "país do forró" — um título que pegou, virou patrimônio imaterial e hoje é repetido pelos 75 municípios.
Algo mudou quando, em 1993, o então prefeito Jackson Barreto criou o Forró Caju, um festival pensado para colocar a capital na rota de cidades já consagradas como Campina Grande e Caruaru. Foi o momento em que a festa de rua deu lugar à festa pública, com palco, som profissional e grandes atrações. Hoje a capital concentra duas estruturas que disputam protagonismo: a Fundação de Cultura e Arte Aperipê (FUNCAP), ligada ao governo estadual, e a Fundação Cultural Cidade de Aracaju (FUNCAJU), parte da administração municipal. Praticamente todos os anos nos mercados centrais acontece o Forró Caju; já na Orla de Atalaia, é erguida a Vila do Forró e é realizado o Arraiá do Povo, com cerca de 30 dias de festa.

Dênio é pesquisador de turismo, cultura e desenvolvimento regional,
Quem acompanha esse fenômeno de perto é o professor Denio Azevedo, do Departamento de Turismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e servidor do Ministério da Cultura. Para ele, o Forró Caju nunca deixou o Centro da cidade — o que mudou foi a criação de um evento paralelo na Orla, fruto de disputa política, e não de um deslocamento da festa original. Azevedo destaca que o evento se espalhou também para bairros como Augusto Franco, Bugio e Santos Dumont, sem perder sua base nos mercados centrais. Já a Vila do Forró nasceu como vitrine: um espaço pensado para valorizar o teatro sergipano, artesanato local e até técnicas tradicionais como a renda irlandesa, patrimônio imaterial do Brasil.
Esse crescimento da festa aparece em números. Dados da Aena Brasil mostram que o fluxo de passageiros no Aeroporto Santa Maria, em junho, mais que dobrou em quatro anos. São 86,7% de crescimento acumulado em quatro anos e cerca de 50 mil passageiros em relação a junho de 2021. Para Azevedo, essa atração se explica porque a cidade hoje oferece um forró mais "organizado", com boas atrações locais e nacionais e estrutura preparada para receber visitantes que vêm de fora para curtir a festa. A pergunta que fica é se esse movimento se traduz em renda para quem trabalha na festa, ou fica concentrado em quem já lucra com ela.
Passageiros em junho em Sergipe. Fonte: AENA.
Produção: Romário Silva
Custos com a Cultura
Ao longo de 2025, a FUNCAP registrou um valor empenhado total de R$ 171,5 milhões. Desse valor, R$ 160,7 milhões foram liquidados (atestados como serviços prestados) e R$ 154,4 milhões efetivamente pagos, depositados nas contas de fornecedores e artistas. A diferença entre o empenhado e o pago (a “dívida” deixada) passa de R$ 17,1 milhões. Embora esse número seja menor que o registrado em junho, quando era de R$ 24,4 milhões, ela ainda representa um volume significativo de compromissos.
Conceitos comuns em contabilidade pública. Fonte: Portal da Transparência de Sergipe
Produção: Romário Silva
Para se ter uma ideia da dimensão das festas juninas no orçamento da cultura do estado, os dados mostram que esse mês concentra quase metade de todo orçamento anual da FUNCAP. Apenas na ação "Realização e Apoio a Eventos Culturais", a fundação empenhou R$ 75,1 milhões neste mês em 2025. Isso representa 43,8% de todo o orçamento empenhado no ano. Dentro dessa ação, uma linha que chama atenção é a que utiliza a fonte “Desvinculação de Receita Estadual Decreto 1116/25”. Aqui, foram empenhados R$ 19,9 milhões, liquidados R$ 10,8 milhões e pagos R$ 9,4 milhões em junho.
Um relatório de 2026 publicado pela FUNCAP registra o valor de R$ 11,8 milhões em restos a pagar. A diferença é nítida, já que o Portal da Transparência apresenta R$ 17,1 milhões. Ainda assim, segundo o relatório, R$ 10,7 milhões não foram liquidados, e pouco mais de R$ 1 milhão estava pendente de pagamento. Assim, até abril, apenas R$ 749 mil de restos a pagar haviam sido quitados e a Fundação ainda devia mais de R$ 11,1 milhões a profissionais, artistas e fornecedores. Embora seja difícil confirmar que todas as despesas estavam ligadas aos festejos, a diferença entre o prometido e pago até junho torna razoável afirmar que parte desse passivo está relacionado aos contratos firmados para a realização da festa.
O Decreto nº 1.116/2025
Para entender parte dessa engrenagem, é preciso voltar a um detalhe que pode ter passado batido pela maioria dos sergipanos. Em dezembro de 2023, a Emenda Constitucional Federal nº 132 prorrogou até o ano de 2032 um mecanismo conhecido como DRU — a Desvinculação de Receitas da União. A DRU permite à União, estados e municípios, usar livremente até 30% das receitas de órgãos e fundos. Assim, em 13 de maio de 2025, o governo estadual publicou o Decreto nº 1.116, criando uma "DRU estadual".
Linha do tempo do decreto 1.116/2025. Fonte: Imprensa Oficial de Sergipe (Iose)
Produção: Romário Silva
Apenas três dias após a publicação do decreto, a Secretaria de Planejamento (SEPLAN) já havia editado a primeira portaria autorizando as desvinculações. Ao longo do ano, vieram outras. Ao todo, pelo que apurou a reportagem, cerca de R$ 93 milhões foram centralizados dessa forma, retirando recursos de órgãos como o DETRAN, a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros. Na prática, o governo criou um mecanismo para distribuir recursos sem amarras, sendo a pasta da cultura uma das beneficiadas.
Evolução das portarias da DRU estadual. Fonte: Imprensa Oficial de Sergipe (Iose)
Produção: Romário Silva
Não é possível provar se os recursos do DETRAN ou da Polícia Militar, por exemplo, foram parar especificamente no palco do São João, já que uma vez que entram na Conta Única do Tesouro, eles perdem sua identificação de origem. Mas é possível dizer, através de documentos oficiais, que a FUNCAP usou dessa fonte para pagar parte da festa em 2025, já que empenhou R$ 19,9 milhões relativos à “eventos” através dela em junho. Assim, cruzando os dados, é possível dizer que praticamente um quarto de tudo empenhado para as festas partiram de orçamentos originalmente de outros órgãos.
Recursos removidos através da DRU estadual. Fonte: Imprensa Oficial de Sergipe (Iose)
Produção: Romário Silva
Investimentos do Legislativo
A reportagem continuou na busca de descobrir de onde vem o dinheiro para financiar o São João e reuniu as emendas parlamentares de 2025 direcionadas à FUNCAP. Ao todo foram 81 emendas, de 18 parlamentares, somando aproximadamente R$ 5,8 milhões. O ranking é liderado por Jorginho Araújo (PSD), Pato Maravilha (UNIÃO) e Paulo Júnior (PV). Já a que mais distribui emendas, individualmente, é Linda Brasil (PSOL). Apenas os três primeiros parlamentares somam cerca de 40% de todo o valor distribuído, mas muitas das descrições registradas são genéricas, do tipo "apoio financeiro". Assim, por este meio, não se pode dizer o que efetivamente foi para o São João ou não.
Recursos totais por parlamentar. Fonte: Portal da Transparência de Sergipe.
Produção: Romário Silva
Emendas individuais por parlamentar. Fonte: Portal da Transparência de Sergipe
Produção: Romário Silva
Custo ou Investimento?
Para o professor Denio, esse debate não deveria parar em planilhas orçamentárias. É preciso questionar que imagem a festa projeta, quanto recebem os artistas locais e os de fora, e que cuidado existe com quem trabalha durante o evento. O docente cita, como exemplo, espaços de descanso e recreação criados para os filhos de catadores de latinha que atuam na festa. Ele afirma que, em média, cada real investido em cultura retorna cerca de três reais em impostos e novos investimentos, mas insiste que o sucesso de uma festa se mede também por outras formas, como a sociabilidade e fortalecimento do pertencimento.
Porém, o que os documentos demonstram é que o São João de Sergipe parece estar sendo financiado — ao menos parcialmente — de uma forma há muito criticada pela população. Não é incomum se observar jargões como “há dinheiro para festa, mas não há para educação”, mas os dados dizem o contrário. O retorno, como demonstra Denio, parece fazer valer cada centavo investido, sem contar os ganhos imateriais, como a autoestima e a identidade cultural. O problema, como se percebe, não é gastar, mas gastar às cegas, sem objetivo claro e com enorme concentração.
Assim, ao optar por um modelo que favorece a liberdade na alocação de recursos, o morador não tem como saber se o show que ele assistiu pode ter sido financiado com verba que originalmente seria de outro órgão ou de uma emenda parlamentar específica. A DRU estadual, criada em poucos dias e usada quase imediatamente, tornou esse rastro mais difícil de seguir; as emendas, quando distribuídas em caráter genérico, também deixam dúvidas. Resta saber se em 2026 esse padrão se manteve.
Fim da Festa
O São João deste ano, para Seu Bernardo, não rendeu o esperado. Foram 21 dias acompanhando os concursos de quadrilha (Levanta Poeira, Gonzagão e do Arranca Unha) já que não foi sorteado para trabalhar no Arraiá do Povo. Assim, o equilíbrio entre o custo e o lucro não veio. Entre o gelo de R$ 35, a mercadoria que aumenta de preço nesse período, a gasolina e a água, ele saiu no vermelho. “Esse ano foi [ruim]. Peguei emprestado R$ 15 mil com meu irmão, parcelei em dez vezes. Tá tudo aí para pagar. Cadê o dinheiro?” A festa cresceu, mas os ambulantes do dia a dia ficaram para trás. Ele descreve de forma brutal a situação: “Quando a festa fica monstruosa, só os monstros comem. Quem é pequeno só lambe”.

Seu Bernardo faz das festas a sua fonte de renda, na esperança de dias melhores
Ele vê os cambistas de pontos de venda, os donos de depósito, os “graúdos” tomarem conta do espaço, enquanto ele e a maioria dos colegas de profissão ficam de fora. A segurança chega tarde, parte dos banheiros químicos são retirados após a visita do governador e o lixo se acumula por dias. Quando perguntado se o Estado lhe oferece algo, ele é claro ao dizer que “a gente fica com a sobra”. Na contramão do discurso oficial, ele aponta as contradições. Para ele, o público que o sustenta é o local, e não o turista.
Por fim, termina dizendo que o São João significa alegria e satisfação. Também conta que se criou no meio dos arraiás e quadrilhas e lembra que seu pai nasceu no dia de São João. Seu grande ídolo é Luiz Gonzaga. Só acha uma pena que a necessidade não o deixe curtir como antes. Mas ele resiste. Planeja se aposentar ao completar 65 anos e não pretende largar os eventos. “Todo ano que tiver São João, vou me inscrever. Onde der para ir, eu vou”. Mas, no fim, com as vendas baixas, afirma, com alguma melancolia que “quando termina a última banda, tem dias que a gente se sente feliz; outros, decepcionado, triste… volta para casa pensando. E no outro dia é outro dia.”
EXPEDIENTE
Apuração
Ana Cláudia, Romário Silva e Lenice Ramos
Reportagem
Ana Cláudia e Romário Silva
Edição
Romário Silva
Fotografia
Ana Cláudia, Ingrid Rodrigues, Lenice Ramos e Romário Silva
Infografia
Romário Silva
Audiovisual/Redes Sociais
Ana Cláudia, Ingrid Rodrigues e Lenice Ramos
Base de dados utilizada:
As infografias publicadas nesta reportagem foram produzidas a partir de dados extraídos das bases citadas a seguir, com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial (IA), como DeepSeek.
Portal da Transparência de Sergipe - https://www.transparencia.se.gov.br
Imprensa Oficial de Sergipe - https://iose.se.gov.br





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