Pelo olhar de Aglaé Fontes: as múltiplas identidades sergipanas
- 22 de jul.
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Atualizado: há 7 dias
Uma conversa com a historiadora que dedicou sua vida à preservação da memória e da cultura popular de Sergipe
Por: Gabriel Batista

Na edição #05 do Zona Contexto, direcionamos nosso olhar para as microrregiões que pleiteiam todo o estado sergipano. Durante o processo de produção, descobrimos o potencial econômico dos municípios sergipanos, identificamos a riqueza cultural e o vocabulário único. Abordamos pautas que revelam a memória do patrimônio do estado: São João, bacia leiteira de Nossa Senhora da Glória, Crise da citricultura, usina hidrelétrica de Xingó, barco de fogo de Estância, turismo em Aracaju, festival da mandioca de Lagarto e artesanato.
Nesta entrevista, conversamos com uma profunda conhecedora da historiografia e da cultura popular do estado, autora da obra "Danças e Folguedos de Sergipe" (1998). A professora Aglaé D'Ávila Fontes nasceu na cidade de Lagarto/SE, no ano de 1934, e é considerada uma das mais importantes historiadoras, folcloristas, escritoras e dramaturgas sergipanas. Conhecida por ser um verdadeiro baluarte da cultura nordestina, ela construiu um vasto legado nas artes cênicas e na preservação da cultura popular.
Aglaé foi professora de filosofia, atriz e diretora de peças teatrais. Autora da obra "Brefaias", escrita em 1970 na época da ditadura militar, foi homenageada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pelo Museu da Gente Sergipana. Aglaé Fontes, hoje com 90 anos, é residente na cidade de Aracaju/SE, no bairro Atalaia, e preside o Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), cargo que ocupa desde 2018, sendo responsável pela preservação de documentos históricos e pela produção intelectual da sergipanidade. Atua também como membro imortal da Academia Sergipana de Letras.
Por que fazer uma entrevista com ela? Aglaé Fontes é a materialização viva da sergipanidade, por ter um grande legado histórico na preservação da memória de Sergipe. É uma mulher que já viveu muitos anos e testemunhou diversas transformações tanto em sua vida pessoal quanto profissional — uma pessoa que tem muito a contribuir com a história de Sergipe. Seus saberes, seu conhecimento, sua vivência — tudo isso possui um peso na história. Fazer uma entrevista com ela significa registrar na história sergipana não só quem ela foi, mas preservar a sua intelectualidade.
A entrevista foi realizada no Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE), uma instituição particular mantida por sócios, que completará 114 anos de fundação e atua como guardiã da cultura sergipana. Em seu prédio de estilo Art Déco, com 89 anos de história, Aglaé Fontes conduz o trabalho de salvaguarda de documentos e da memória escrita do estado.
Ao longo desta conversa, a professora Aglaé Fontes — historiadora, folclorista, escritora e presidente do IHGSE — nos mostra que a ideia de uma Sergipe homogênea não se sustenta, destacando as três grandes contribuições étnicas (indígena, africana e ibérica) que moldaram nossos costumes, alimentação e vocabulário. Exploramos desde a importância do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe na salvaguarda da nossa memória, até o impacto dos ciclos econômicos da cana-de-açúcar e do gado no desenvolvimento das nossas cidades. O resultado é um mergulho na resistência cultural de um povo que se recusa a ser reduzido a estereótipos.
Zona Contexto: No que tange à história do estado, Sergipe possui uma identidade única e homogênea ou o estado é definido pelo conceito de multiplicidades?
Aglaé Fontes: Veja bem, eu não acho que Sergipe tenha uma homogeneidade, uma vez que a contribuição étnica do Estado nos mostra uma influência muito forte, inicialmente indígena. Depois, temos os africanos escravizados que vieram pela mão do colonizador. Já aí você tem três contribuições, sem falar no que foi acontecendo depois. Não podemos ser homogêneos porque somos o resultado de três contribuições valiosas em todas as áreas: alimentação, música, dança e costumes herdados. Nós somos realmente diversificados e temos que ter consciência dessa diversidade. Não se pode dizer que a influência maior é apenas a ibérica (portuguesa e espanhola); mas os donos da terra foram dizimados e muitas contribuições foram apagadas. Portanto, não houve uma homogeneidade, mas sim uma diversidade muito rica.
Zona Contexto: A senhora identifica que as diferenças culturais entre o litoral, agreste e sertão são profundas o suficiente para que o estado tenha identidades distintas?
Aglaé Fontes: Eu acho que as regiões podem ter um comportamento diversificado. Por exemplo, em uma pesquisa sobre moradores da "beira do rio" (como eles dizem), notei que em Neópolis existe a expressão popular "beiro". Em Propriá, a tampa de panela era chamada de "texto". Há uma linguagem e características que diferenciam esses lugares, dependendo da maior ou menor contribuição étnica. Vemos uma riqueza de linguagem no Baixo São Francisco, onde as pessoas contam histórias enquanto lavam roupa na "beira" — algo muito diferente de uma mulher que lava roupa em uma lavanderia na cidade. Essas identidades são individuais de cada região.
Zona Contexto: Professora, o significado da palavra "Siriri-pe", que é "rio dos siris", é um dos marcos da nossa origem. Mas, em sua visão, o que falta para identificar outros símbolos da identidade indígena que possam garantir a memória sergipana?
Aglaé Fontes: Essa é uma expressão indígena da origem, mas estudos mostram que o nome de Sergipe está mais ligado a uma definição Tupi como "Terra de Serigipe", vinda do Cacique Serigy. Muitas de nossas cidades têm nome de origem indígena como Pacatuba, Siriri e Japaratuba, que reforçam essa herança. Não podemos ver o estado como algo unificado.
Zona Contexto: No que tange ao vocabulário sergipano, fruto da miscigenação entre portugueses, espanhóis, africanos e indígenas, a senhora acha que ele vem sendo preservado?
Museu da Gente Sergipana, parede de palavras do dialeto sergipano
Aglaé Fontes: Acho que é um tema de debate. A linguagem natural da zona rural é muito rica; o método de Paulo Freire, por exemplo, valorizava a linguagem regional para alfabetizar. Antigamente, as pessoas tinham vergonha de falar como sergipanas ao viajar para outros estados, tentando imitar sotaques do Rio de Janeiro ou da Bahia. Eu não tenho esse acanhamento; falo "Vixi Maria", "ôxe", "marmininos menino", pois isso está incorporado à minha identidade e origem. Estudar cientificamente não obriga ninguém a abominar sua fala sergipana. Por isso, a influência africana, por exemplo, está incorporada na nossa identidade, nos nossos costumes e nos nossos falares, muitas vezes em palavras do vocabulário que usamos sem nem saber a origem.
Zona Contexto: Com o tempo, a língua Tupi-Guarani acabou sendo apagada devido ao processo de colonização em Sergipe?
Aglaé Fontes: A função do colonizador era controlar: tirar a religião e a fala do outro para colocar as suas. Eles mudaram a identidade e o "relógio de vida" do indígena e do africano. No entanto, o africano escravizado superou essa tentativa de apagamento de tal forma que o Brasil incorporou muito de sua linguagem e cultura.
Zona Contexto: Como a senhora vê a influência africana em comparação à indígena?
Aglaé Fontes: Basta um olhar pela cultura popular para você ver como é grande a influência africana. Um exemplo é o grupo "Parafuso", em Lagarto, que nasceu como resistência à escravidão. Eles roubavam as anáguas das sinhás para se vestirem e fugirem para os quilombos; após a abolição, saíram às ruas com seu batuque. Quando passou em frente à Igreja onde estava o padre, eles rodavam e ele disse: parecem uns parafusos.
Sala das manifestações artísticas do estado de Sergipe, localizada no Instituto Histórico e Geografico de Sergipe.
Zona Contexto: O povo africano e indígena contribuiu mais para a identidade sergipana através da língua ou das manifestações folclóricas, religiosas e gastronômicas?
Aglaé Fontes: Eu acredito que a influência nas danças, rituais e religião é tão grande quanto a ibérica. Os "folguedos" (ou danças dramáticas, como dizia Mário de Andrade) contam histórias, como o Reisado e o Lambe-sujo versus Caboclinhos, que encena a luta entre negros e indígenas. Escrevi um livro sobre isso, "Danças e Folguedos de Sergipe", pois o sergipano deve se orgulhar dessa diversidade misturada. Na cultura popular, a influência africana é enorme, presente na alimentação e nas danças.
Zona Contexto: Qual o papel do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) na preservação dessa memória?
Aglaé Fontes: O Instituto completará 114 anos como instituição. O prédio em si tem 89 anos, em estilo Art Déco. O objetivo do Instituto é a salvaguarda de documentos e do que foi escrito em Sergipe. É uma instituição particular, mantida por sócios, que atua como guardiã da cultura sergipana.

Frente do Instituto Historioco e Geografico de Sergipe (IHGSE).
Zona Contexto: A respeito da economia, o gado e a cana-de-açúcar ditaram o desenvolvimento das regiões? Quais cidades enriqueceram?
Aglaé Fontes: A economia foi o elo forte para essa mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju. Laranjeiras, por exemplo, chegou a ter mais de 120 engenhos de açúcar. Aracaju facilitava o escoamento via porto. Além do açúcar, o gado e a mandioca foram fundamentais. Sergipe fornecia carne até para a Bahia antes da emancipação política em 1820, que completa 206 anos agora em 8 de julho.
Zona Contexto: Como a identidade ribeirinha e o artesanato de Santana do São Francisco resistem aos impactos dos avanços tecnológicos e intervenções no leito do rio São Francisco?
Aglaé Fontes: A região ribeirinha tem características únicas. Em Santana do São Francisco (antigo Carrapicho), a cerâmica era utilitária: faziam-se potes e purrões para armazenar água, pois não havia água encanada. O rio era o transporte essencial. As cidades à beira do rio desenvolveram sua subsistência e cultura em torno da água e do artesanato de resistência.
Zona Contexto: De que forma ciclos produtivos como a mandioca, principalmente na cidade de Lagarto, e a bacia leiteira no sertão sergipano moldam as festas e a identidade cultural?
Aglaé Fontes: Em Lagarto, temos a Festa da Mandioca, que é uma valorização da natureza. Com ela fazemos farinha, bolo e da folha a maniçoba. Existe até uma brincadeira indígena chamada "Arranca Mandioca", similar ao cabo de guerra, que mostra como essa cultura está inserida em nós sem percebermos. Somos uma mistura: ora africanos, ora indígenas, ora ibéricos.
Zona Contexto: Como promover o turismo sem reduzir a "sergipanidade" a estereótipos?
Aglaé Fontes: É preciso ter muito cuidado, pois o turismo às vezes cria modismos e esquece as origens reais. Não se deve "modernizar" um evento cultural apenas para agradar turistas, mudando músicas ou danças. Isso destrói a identidade em nome de uma novidade sem valor cultural. O turismo deve respeitar o que compõe a nossa identidade real.
EXPEDIENTE
Pesquisa e Reportagem
Gabriel Batista
Imagens/Fotografias
Gabriel Batista e Helena Barbosa
Edição de Fotos
Helena Barbosa















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