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Afrofuturismo Serigypano

  • há 6 dias
  • 14 min de leitura

As viagens intergalácticas e atemporais na criação artística do povo preto em Sergipe enquanto ferramenta de resistência cultural



Histórias de viagens para outros planetas, carros voadores, utopias e distopias em futuros inadiáveis são as imagens mais acessíveis quando pensamos sobre ficção especulativa, também conhecida como ficção científica. Se muitas vezes essas histórias possuem narrativas típicas do ideário capitalista – como a colonização de outros planetas e dominação de outras civilizações –, no Afrofuturismo essas narrativas adquirem outro propósito; o de fortalecer as narrativas do povo preto por meio da reimaginação do presente a partir de perspectivas de futuro enraizadas na ancestralidade.


Nesta edição do Zona Contexto, viajamos por algumas das microrregiões de Sergipe e pudemos conhecer suas histórias, tradições e memórias. Ao desbravarmos essas multipliCidades, refletimos sobre a predominância de elementos culturais de origem africana e indígena, e suas estratégias de resistência diante do apagamento. Compreendemos o Afrofuturismo como uma dessas estratégias, o que motiva a construção dessa reportagem como uma viagem intergaláctica e atemporal rumo à compreensão dos traços culturais que se transformam sem nunca abandonar suas origens.


Para compreender melhor as travessias interestelares do Afrofuturismo, conversamos com Kênia Freitas, educadora, docente de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e pesquisadora do tema, crítica e curadora de cinema. “O Afrofuturismo surge primeiro como uma ideia de uma lente cultural, como uma maneira de interpretar. Ele veio para falar sobre a produção negra, a produção afrodiaspórica ligada à ficção especulativa de uma maneira mais geral”, ela explica.


São muitas as ferramentas de enfrentamento e resistência utilizadas pelo povo preto para sobreviver em um planeta cujo sistema regente é estruturalmente racista. Narrar suas histórias como elas são, dando destaque à amplificação de denúncias, é uma dessas ferramentas. O Afrofuturismo, contudo, amplia essas possibilidades. Kênia nos diz: “Quando a gente vive no mundo da antinegritude, a nossa imaginação é muito cerceada, o tempo inteiro. O Afrofuturismo fortalece [o povo preto] no lugar de falar “não quer dizer que a gente vai resolver nada disso, mas você também pode imaginar o que você quiser, da maneira como você quiser”.


Ao ser questionada sobre suas referências artísticas no Afrofuturismo, uma das referências trazidas por Kênia foi o artista norte-americano Sun Ra, ícone da música afrofuturista. Aos 38 anos, Sun Ra assumiu uma nova biografia cuja história remonta ao espaço sideral. O músico jazzista afirmava vir de Saturno para salvar os terráqueos negros por meio da música e libertar o povo preto da opressão racial. Ele dizia que no espaço sideral o racismo não existe e que lá as pessoas negras podem viver livremente.


Freitas acredita ser inspiradora a forma como o artista incorporou na própria vida algumas ficções afrofuturistas. Sobre elas, afirma: “Isso não é só uma fuga, só uma negação dos nossos problemas. Isso pode ser uma maneira, inclusive, de desafiar o sistema. Essa imaginação abre possibilidades para quebrar um pouco toda essa dureza que a gente atravessa. Você pode falar: ‘eu posso sonhar, imaginar, visualizar, criar a partir do que eu quiser’”.


Com o processo colonial de classificação dos povos não-brancos como inferiores, suas culturas e seus conhecimentos foram invisibilizados, proibidos e demonizados. Porém, por meio da oralidade os povos mantiveram sua memória viva, deram continuidade às suas tradições por meio da arte, da espiritualidade e da palavra falada. “Tem uma frase que eu gosto muito do afrofuturismo que é: “a gente é a ficção científica, o sonho que as pessoas lá atrás sonharam”, e sonharam em condições muito adversas”.


"A gente existe porque essas pessoas ali criaram formas não só de sobreviver, mas de viver, de inventar, de preservar questões culturais negras, seja na espiritualidade, seja nas formas de viver, seja na maneira de comungar. [...] Talvez o nosso desafio seja sempre aprender com os que vieram antes e com o que eles já fizeram, porque o tempo inteiro isso vai ser desvalorizado, como se não fosse uma tecnologia, como se não fosse uma inteligência. E é." relata Kênia Freitas

 Kênia Freitas, educadora negra e mente afrofuturista


Segundo dados censitários do IBGE de 2022, a população negra de Sergipe está estimada em 1.645.464 pessoas. São 28.163 pessoas identificadas como quilombolas. Diante desse cenário, nota-se que enquadrar pessoas negras e quilombolas enquanto “minorias” não se trata de uma questão quantitativa, mas de uma questão política. Isto é, apesar de sermos a maioria da população, ainda não temos nossos direitos políticos assegurados.


As criações artísticas afrofuturistas possibilitam uma experiência de presente onde as perspectivas de futuro não sejam cerceadas apenas pelo horizonte estabelecido pelo sistema racista. O Afrofuturismo busca a criação de novas ficções e novos horizontes onde a existência negra seja plena e os fardos do racismo não destituam do povo preto a sua humanidade, os seus sonhos, suas fantasias. A simbologia de Sankofa, adinkra africano representado por um pássaro que anda para frente olhando para trás, se encontra expressa nessa perspectiva.


Serigype sob tela


As artes de Nivaldo e Larissa convergem numa questão em comum: o Mundo Negro


Entre as ruas estreitas do Centro Histórico de São Cristóvão, cidade-mãe de Sergipe, a cerca de 22 km da capital do estado, ou pelos coqueiros próximos à beira do mar da Atalaia Nova, no município da Barra dos Coqueiros, que também integra a região metropolitana do estado, o Afrofuturismo Serigypano se manifesta nas obras de artistas como Mestre Nivaldo Oliveira e Larissa Vieira. Ambos em ateliês pequenos, um repleto de artes em estilo xilogravura e outro com telas, tintas e estampas coloridas, fazem referências à ancestralidade africana e traçam perspectivas de futuro para a arte preta em Sergipe.


O baiano, que chegou a São Cristóvão em 2004 para fazer restauros de arte sacra, teve um choque com a falta de identificação das pessoas negras com sua própria identidade. “Lá nós tínhamos essa aceitação de levantar bandeiras e dizer ‘Eu sou negro, eu sou pele preta’. E aqui (risos), aqui você encontra as pessoas, que são pretas, se escondendo como moreninhos.”, contou Mestre Nivaldo.


Natural de Aracaju, Larissa em seu Mundo Negro faz da própria trajetória, marcada pelas vivências na periferia e pela pesquisa sobre arte africana e afro-brasileira, a matéria-prima para criar narrativas visuais que projetam novos horizontes para o povo preto. Para ela, o movimento afrofuturista representa “os futuros possíveis a partir de conhecimentos e tecnologias ancestrais”, espaço onde a construção do futuro pode existir para além do fardo da opressão racial.


Nivaldo e Larissa em seus ateliês. Dois dos principais artistas negros sediados em Sergipe


Nivaldo Oliveira define o afrofuturismo como: “Uma maneira da gente se mostrar,  valorizando a sua raça. Em qualquer sequência, na música, na arte,  no modo de vestir,  no seu modo de pensar”. Para ele, seu lugar de mestria pode ser melhor visto quando recebe crianças das escolas em seu ateliê. “Eles perguntam: ‘Por que aquela figura está com aquela lança na mão? Por que esse homem está com o peixe? Ele é negro?’ Então, a gente tem esse diálogo”.


Ao deixar Nivaldo para cuidar de uma equipe por conta de uma viagem, o escultor baiano, Mestre Zu Campos, deu início à carreira do artesão. “Eu era o mais novo,  estava monitorando no lugar do mestre um grupo de pessoas de idades totalmente diferentes da minha”.


Em meio às pesquisas para o seu TCC sobre esculturas e máscaras africanas, durante a graduação de Artes Visuais, Larissa passou a buscar uma linguagem que rompesse os padrões eurocêntricos ensinados na formação artística. Foi durante esse percurso que os símbolos das religiões de matriz africana passaram a ocupar um lugar central em sua produção.


Ela lembra que chegou a ter um mural recusado por uma moradora que associou seu trabalho às religiões de matriz africana de forma pejorativa. Longe de fazê-la abandonar sua linguagem, o episódio reforçou a importância de seguir produzindo. Aos poucos, a artista que tinha medo de assumir sua identidade, passou a compartilhar suas ilustrações, assumir a autoria de seus trabalhos e ocupar espaços.


Larissa em seu Mundo Negro encontra expressão para retratar o universo afrodiásporico


Apesar de São Cristóvão ser uma das cidades sergipanas que mais têm terreiros de candomblé, com cerca de 72 comunidades de terreiro instaladas no município, Mestre Nivaldo, que tem muitas obras voltadas à religião, conta que o fato é muito esquecido e que não se ouve falar muito na região. Ele busca trazer um pouco mais da identidade negra do território retratando manifestações locais como Chegança e Reisado.


Ao imaginar futuros possíveis para a juventude negra, Larissa também ajuda a construí-los. “O afrofuturismo, principalmente na questão estética, ele permite que a gente explore essas referências de modo atemporal. Os jovens pretos, eles conseguem absorver dessa cultura ancestral, e ao mesmo tempo eles conseguem coexistir nesse universo estético, sendo possível criar sua individualidade que ao mesmo tempo é coletiva”, afirma.


Como estratégia de resistência às ameaças frequentes da babilônia, Mestre Nivaldo afirma ser necessário, principalmente, ter confiança. “Eu vejo como um potencial, você se sentir capaz e ir à luta. O resto, as barreiras, você vai passar por cima, cara.  Se você estudou para ser o tal, você vai ser o tal.  Ninguém te tira disso”.


Utilizando matrizes de xilogravura entalhadas por ele mesmo, Mestre Nivaldo retrata a cultura sergipana negra em suas obras


Constelação negra de ritmo e poesia


O afrofuturismo está muito além das associações feitas pelo imaginário popular -– está no toque dos tambores, nas rodas de capoeira, nos cortejos afro, nos terreiros e na valorização de memórias que durante muito tempo permaneceram à margem da história oficial. No caminho de imaginar futuros possíveis, os artistas pretos de Serigype têm utilizado a arte para reafirmar a ancestralidade negra como ferramenta de criação, resistência e transformação social.


Entre esses artistas está Tonico d’Ogum. Percussionista, educador social e criador do projeto Sucata Sonora, que acontece no Centro de Criatividade, próximo ao quilombo urbano Maloca — segundo quilombo urbano reconhecido do Brasil. Ele cresceu cercado por influências que unem religiosidade de matriz africana, samba, capoeira e teatro.


Filho de um sambista da escola de samba aracajuana Tubarão da Praia, e descendente da tradição nagô de Laranjeiras, afirma que seu contato com a cultura negra começou ainda dentro de casa. “O que o meu pai ouvia era o Jackson Five, né, o Michael Jackson, Tim Maia, o Jorge Ben, foi sambista de escola de samba. […] Eu venho dessa existência de berço”, conta.


Para Tonico, o tambor “é uma ignição sonora, onde a partir do ritmo é possível se conectar com África”


Ao longo da infância e da adolescência, o Centro de Criatividade, no bairro Getúlio Vargas, tornou-se um espaço importante para sua formação. Foi ali que conheceu oficinas de teatro, música e capoeira, além de conviver com artistas que ajudaram a construir a cena cultural negra de Aracaju. Tonico faz questão de citar nomes como Luiz Augusto (Mestre Saci), responsável por fortalecer o samba-reggae e a capoeira na região, além de reconhecer a importância de Aglaé Fontes, que identificou talentos periféricos e aproximou muitos jovens da produção artística, tendo ele próprio participado da peça O Auto do Menino do Quilombo, de Aglaé, em seu tempo participando de oficinas do Grupo Teatral Imbuaça. 


Em 2012, Tonico passou a integrar a banda Kilodoinhame, num hibridismo que unia ritmos afrodiaspóricos à guitarras elétricas e enaltecia a diversidade cultural sergipana, já antecipando uma postura afrofuturista em seu processo criativo. Hoje, essa trajetória se apresenta no Sucata Sonora. O projeto transforma latas, tambores metálicos e outros materiais recicláveis em instrumentos de percussão, aproximando crianças e jovens da música por meio da educação e da economia criativa. A proposta parte da ancestralidade dos tambores africanos, mas dialoga diretamente com linguagens contemporâneas e questões ambientais.


O trabalho realizado pelo Sucata Sonora agrega também uma dimensão política. Ao ocupar escolas, comunidades, presídios e espaços culturais, o artista utiliza a música como instrumento de pertencimento, geração de renda e fortalecimento da identidade negra. Em sua visão, preservar a ancestralidade não significa repetir o passado, mas criar novas possibilidades a partir dele.


Esse movimento também é sustentado pelo legado de artistas e pesquisadores que abriram caminho para as novas gerações, a exemplo do multiartista Severo D’Acelino e da pesquisadora Aglaé Fontes, que dedicaram suas trajetórias à valorização da memória preta sergipana e da cultura popular através do teatro. Foi nas oficinas coordenadas por ela que Tonico de Ogum iniciou sua formação artística, reconhecendo sua influência até os dias atuais.


O afrofuturismo também encontra espaço na produção de uma nova geração de artistas sergipanos. Sem abandonar as referências ancestrais, eles utilizam a música, a literatura, as artes visuais e a performance para discutir identidade, memória e pertencimento a partir de perspectivas contemporâneas.


Através de sua música, Anne proporciona o aquilombamento para mulheres e homens pretos


Entre eles, figura a voz potente e inconfundível da cantora e compositora Anne Carol. Neta de uma grande mestra da cultura popular em Serigype, Dona Nadir da Mussuca. A Mussuca é uma das comunidades quilombolas do estado, sediada em Laranjeiras, onde se destacam as tradições do Samba de Pareia e da Dança de São Gonçalo. Em sua música, Anne aborda as vivências de mulheres pretas e atribui-lhes protagonismo, trazendo autoestima e pertencimento com sua lírica – à um só tempo sensível e política, ancestral e decolonial. Acompanhada de sua banda, a artista tem ganhado reconhecimento e projeção fora do Estado, com turnês recentes Brasil adentro.


Numa alquimia com diversas sonoridades negras, produzindo um som moderno sem abrir mão de sua identidade profundamente serigypana, sua obra mistura soul, reggae, rock e outros gêneros, que ela conceitua como Música Preta Brasileira. Uma passagem fundamental em sua obra é a faixa Epidérmica, que tem como mote a valorização da insubordinação negra e do pensamento crítico como forma de resistência: “Eles querem novas Vênus Negras, eles temem novas Panteras Negras, epidêmica revolução crespa, epidérmica revolução preta”.


As imagens que aparecem em suas composições evocam, reconstroem e celebram a beleza e singularidade de seu povo, criando referência para mulheres pretas: “Menina, negrume da noite, flor dos nossos orixás, black magia na pele, flor dos nossos ancestrais.


Dessa novíssima turma, outros nomes também merecem destaque. É o caso de Daguada e sua banda, Açocena. Com forte influência da música negra popular, dos sambas e cortejos do povoado onde vivia, no interior de Carmópolis, Nandinho Daguada transforma a música numa verdadeira aula de contestação e destemida celebração da herança negra, com suas “veias de lá”, recordando que afrofuturismo também é manter-se engajado e crítico ao real. Ao pautar em suas canções problemas que atingem o território e permeiam a raça, ele demarca a narrativa e a perspectiva daqueles que sentem “a pele já cansada do Sol” diante do peso da desigualdade social.


Mali é pseudônimo de Isabelly Lima, uma das formas que encontrou de reafirmar sua identidade


O afrofuturismo também aparece como um tema forte nas composições de artistas do hip hop serigypano. Juntando o improviso com seu conhecimento, Mali, filha de Yemanjá, geógrafa formada pela UFS e produtora cultural, é natural de Estância, litoral sul de Sergipe. A rapper iniciou sua jornada como MC através do Coletivo Bueiro e desde então tem alcançado projeções interessantes na cena, com participação na programação do Festival de Artes de São Cristóvão (FASC) em 2023.


Em sua passagem pelo palco do Slam Marielle, no Espírito Santo, a artista entoou versos dilacerantes de revolta e resistência preta: “A minha língua é gilete que corta até canavial, cansada de limpar seus toaletes… eu quero é ver mais gente da minha gente ocupando espaço vital. Fazem com que duvidemos das raízes… mais uma Beatriz Nascimento no esquecimento: poeta, negra, intelectual e nordestina - morre sem o seu devido reconhecimento. Eu tô cansada de falsos lamentos!”


Sublinhando a emancipação preta feminina através da arte-educação e das vivências de uma jovem negra de axé, com sample de Nina Simone numa reverência à um legado negro na música, a sensibilidade da artista perpassa as questões pessoais, o enfrentamento das opressões cotidianas e os resquícios de oligarquia nas dinâmicas políticas da história de Serigype, como ouvimos em Folha em Branco.


A poeta Blenda Santos, aracajuana da zona norte, também faz parte dessa constelação afrodiaspórica serigypana. Com versos insurgentes, sua voz se ergue para amplificar vivências e inquietações de mulheres negras da periferia. Ao ocupar o lugar da escrita, suas palavras atravessam feridas coloniais, questionam fatos, revelam contradições, subvertem e reconstroem narrativas de violência.


Aquela que escreve “com uma multidão de mulheres atravessando os olhos” , sua poesia nos recorda que afrofuturismo também é poder revisitar esse passado e “recontar a história por eles mal contada”, como descreve em Descarte de escravos no mar mudou o hábito dos tubarões. Sua escrita reúne aspectos da vida no mundo moderno, e com o mesmo afinco convoca memórias intrínsecas à subjetividade negra transatlântica.


Afrofuturo em Moto-perpétuo


Em um cenário onde a cultura disseminada se encontra homogeneizada e globalizada, como consequência direta de um projeto de epistemicídio cultural e intelectual, reconhecer e celebrar a produção artística preta de Serigype é o despertar de um sono profundo na nossa cultura. Isso é uma tarefa indispensável para aqueles que lutam pela construção de olhares mais plurais e entendem a força e o impacto social de uma arte que combate o retrocesso.


É possível ficcionar novos mundos a partir de fragmentos do passado e de uma observação atenta do presente, por meio de tecnologias e saberes ancestrais do universo singular e criativo da ancestralidade preta serigypana. Seja na periferia ou em quilombos, em comunidades tradicionais, nas veredas do sertão, nas artes ou nas academias, estar em contato com a arte preta de Serigype significa romper com silenciamentos históricos. Por meio dessa produção artística é possível se envolver com narrativas e expressões de imensurável genialidade e originalidade, ao fissurarmos epistemologias, lógicas e práticas e resgatarmos as nossas próprias.


Como nosso maior patrimônio vivo e pulsante, a cultura permanece em movimento contínuo. Funcionando como um lócus de resistência e retomada, ela é dinâmica: preserva tradições e também passa por metamorfoses. Nesse ponto de vista, o futuro é alcançarmos o que nos foi tomado, é a busca por reparação. Como nos relembra Ailton Krenak, o futuro é ancestral justamente pela potência de nossas confluências. O povo preto sergipano, em sua ampla gama de expressões, segue reescrevendo histórias, produzindo vida, arte e saber contra uma realidade que acumula violências sistêmicas no cotidiano.


Por conta da Lei 10.639, que trata do ensino da História e Cultura Afro-brasileira nos currículos escolares, as experiências de continuidade da abordagem afrocentrada na educação sergipana já são vivenciadas, mesmo que a passos lentos. Podemos observar essa manutenção com o avanço da cultura de slams (campeonatos de poesia falada), batalha de rima e saraus nas escolas públicas, a exemplo de oficinas mobilizadas por diversos coletivos de hip-hop em Serigype nas escolas públicas do estado.


Nesse sentido, não podemos esquecer daqueles que abriram caminhos no passado e são referência para articulações do movimento negro em Sergipe, como o projeto João Mulungu vai às Escolas, de Severo D´Acelino, que em 2004 já ampliava discussões acerca de questões étnico-raciais articuladas à cultura negra.


Severo com retrato da mãe - Museu da Pessoa, “Ancestralidade Afrosergipana"



 (“Palestra à professores de Propriá)


João Mulungu é um líder quilombola considerado por Severo D´Acelino o herói negro sergipano


Conforme argumenta a pesquisadora de Estudos Étnicos e Africanos Laila Oliveira, num artigo do site Blogueiras Negras, o antirracismo deve começar pela transgressão da estrutura. Ao romper com a lógica da branquitude em espaços de poder e intelectualidade, desmantelamos as relações estabelecidas de subalternidade e abrimos espaço para que o conhecimento seja produzido a partir de novas bases contra-hegemônicas.


Segundo a autora: “os lugares de comando e decisão continuam na mão de pessoas brancas, ou não negras. E são nessas relações de poder e subalternidade onde as violências coloniais continuam existindo e se perpetuando. É preciso muita coragem para romper com essas lógicas, quando você só se conhece inserido nela”.


Para além do campo educacional, Laila também discute como a ausência de políticas públicas que consigam transformar a vida da população negra reforçam um cenário repleto de frentes de extermínio. Diante de um passado perverso e um presente ainda violento, que lugar o afrofuturismo ocupa na vida e na dinâmica de produção artística do povo preto em Sergipe?


Como um dia pensou a serigypana Beatriz Nascimento: “É preciso a imagem para recuperar a identidade. Tem-se que tornar-se visível, porque o rosto de um é o reflexo do outro, o corpo de um é o reflexo do outro e em cada um o reflexo de todos os corpos. A invisibilidade está na raiz da perda da identidade”. Isso significa que a criatividade negra enquanto tecnologia ancestral representa um lugar que vai na contramão do racismo, ao legitimar, ressignificar e dar forças à existência negra.


Despertar essa consciência, sobretudo, mobiliza novas gerações a se reconhecerem para modificar o cenário, fortalecendo a identidade, a coletividade e produzindo referências como dispositivo de confronto às desigualdades sociais e contradições sócio-históricas ainda presentes e marcantes em nosso cotidiano.


Ainda nos dizeres da historiadora, a memória ancestral é a nossa viagem no tempo. Nossa distopia é perpassar criticamente a travessia entre o Oceano Atlântico e o sertão nordestino, se reinventando ao longo da História. Dessa forma, o Afrofuturismo Serigypano é a continuidade viva de experiências passadas, que segue contando as histórias de seu povo no presente, seja relembrando a memória de mestres que já partiram, ou incorporando características diaspóricas em suas linguagens, ao deslocá-las para o campo da subjetividade.


Se Carl Jung realmente tiver razão, os sonhos, de fato, guardam a memória da espécie e, dessa forma, a arte gestada aqui é uma das formas mais profundas de atravessar o tempo-espaço e acessar as experiências da nossa subjetividade e desse inconsciente coletivo. Sonhar segue sendo nossa forma de fazer da vida arte ao ficcionalizar a realidade, onde cada obra está repleta de mapas iniciáticos que nos guiam para um autoconhecimento conectado ao território e às pessoas que dele fazem parte nessa grande espiral do tempo não-linear.

Expediente


Apuração

Evy Oliver

Helena Barbosa (Gasú)

Kauany Souza

Ruan Victor Batista


Reportagem

Evy Oliver

Helena Barbosa (Gasú)

Kauany Souza

Ruan Victor Batista


Edição

Evy Oliver


Fotografia

Evy Oliver

Helena Barbosa (Gasú)


Audiovisual/Redes Sociais

Roteiro

Ana Júlia Gomes

Gabriel Batista

Thiago Antônio

Kauany Souza

Ruan Victor Batista

Helena Barbosa (Gasú)

Ygor Antônio Rodrigues

 
 
 

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ZONA CONTEXTO é uma produção laboratorial EXCLUSIVA, da disciplina Laboratório de Jornalismo Integrado I, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.

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