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Raízes que sustentam a História

  • 20 de jul.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 23 de jul.

Discrepâncias na preservação do patrimônio cultural de Laranjeiras expõem pouca atenção às origens negras da cidade


Diferenças na conservação de prédios históricos expõem inconstâncias nas políticas públicas


Todo lugar carrega sobre seus ombros o peso de uma história. A forma como essa história é contada apresenta resquícios de quem a concebeu e a consolidou como narrativa principal. Assim é o caso de Laranjeiras, situada no Leste de Sergipe, a cerca de 18 quilômetros da capital, Aracaju. Conhecida como a “Atenas Sergipana”, a cidade tem sido, por muito tempo, um berço de cultura e conhecimento, tanto erudito, quanto popular. O município também é dito como o segundo mais antigo do estado, tendo como data oficial de fundação o dia 7 de agosto de 1832.


Por conta dessa longa trajetória, possui um patrimônio cultural extremamente rico, oriundo da colonização portuguesa, mas que também denota marcas da resistência dos povos escravizados. A nossa equipe de reportagem visitou a cidade com o intuito de analisar como esse patrimônio tem sido conservado pelos órgãos públicos e pela própria sociedade laranjeirense, destacando suas riquezas e diversidades. Mesmo com uma importância cultural e histórica imensurável, ao visualizar a infraestrutura física e social de Laranjeiras, é perceptível que existem dificuldades na preservação desses bens, tanto materiais quanto imateriais.


É a partir desses dois aspectos que surgem duas perspectivas distintas entre os historiadores acerca da importância de refletir sobre a ótica pela qual a história do município tem sido contada, conforme relata a professora Janaina Mello, do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe (UFS). “Enquanto a história tradicional, muito vinculada ao colonialismo, chama Laranjeiras de “Atenas Sergipana”, fazendo uma vinculação de sabedoria a uma cultura branca europeia, essa nova abordagem da historiografia mais recente tem trazido uma outra perspectiva, da ancestralidade africana, da negritude, da identidade negra”, afirma a historiadora.


Laranjeiras possui uma diversidade de tradições culturais, que são conservadas pelo povo.


Ao mesmo tempo que sua elite açucareira desfrutava de uma produção artística e intelectual nos padrões europeus da época, com forte influência da Igreja Católica, a população indígena e negra também desenvolvia suas próprias manifestações culturais e folclóricas, como os Lambe-Sujos, a Chegança e o Reisado. Por esse motivo, o município é reconhecido pela Lei n° 306/2025, sancionada em fevereiro de 2026, como a Capital Sergipana da Cultura Popular.


Contradições na conservação dos resquícios do passado


Na paisagem da cidade, a beleza da preservação e o desgaste do tempo coexistem


Devido a sua importância histórica, o centro histórico de Laranjeiras foi oficialmente tombado em 1996 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), após um processo iniciado em 1989. Dessa forma, a arquitetura colonial presente na cidade deve ser devidamente conservada, conforme a legislação. Porém, ao observar a infraestrutura da cidade, é possível notar uma discrepância entre o estado de preservação de diferentes prédios.


Na área central, nota-se que os edifícios hoje ocupados por estabelecimentos comerciais, órgãos públicos e museus são relativamente bem conservados, com suas portas e paredes coloridas se destacando na paisagem urbana. No entanto, no mesmo perímetro, também há prédios visivelmente desocupados, que sofrem com a passagem do tempo e a sombra do esquecimento, apresentando fachadas desgastadas e destoantes com as demais.


Outro contraste perceptível é a diferença estrutural de algumas igrejas, todas também originadas da colonização. A Igreja Matriz Sagrado Coração de Jesus, devido à sua importância religiosa e à centralidade de sua localização, aparenta ser bem cuidada, tanto na parte externa, quanto interna. Algo que chama atenção é que, como continuam realizando-se missas no local, a arquitetura barroca centenária da igreja atualmente coexiste com instalações contemporâneas, como cadeiras de plástico, caixas de som e ventiladores, presentes para acolher os fiéis e auxiliar nos ritos católicos.


Entretanto, algumas igrejas da cidade não tiveram o mesmo amparo da Matriz, como é o caso da Igreja Nossa Senhora da Conceição dos Pardos. Com uma localização um pouco mais afastada do centro, o templo religioso demonstra de forma expressiva a passagem temporal, com a pintura desgastada, a fundação rachada, o telhado tomado por plantas e algumas janelas quebradas.


A arquitetura das igrejas revela as marcas da colonização, mas também, a persistência da fé.


A Secretaria de Obras do município atua diretamente no processo de restauração dos prédios históricos. O secretário, Adailton Mário Santos, indica que o trabalho realizado segue alguns critérios, como o grau de deterioração, risco estrutural, importância histórica e cultural, uso pela população e potencial turístico de cada edifício, além dos recursos financeiros disponíveis para o órgão.


Outro aspecto de destaque na infraestrutura de Laranjeiras é que, quanto mais se afasta do centro histórico, é visível uma diversidade maior de arquiteturas de diferentes épocas nas casas e estabelecimentos. Isso cria um contraste com a paisagem histórica mantida pelo tombamento da cidade. 


Cultura tradicional cercada de memórias e conflitos 


Para além do importante patrimônio material, Laranjeiras apresenta uma diversidade cultural riquíssima, fortemente ligada à resistência negra no período colonial. Por esse motivo, foi fundada em 2006 a Casa do Folclore Zé Candunga, responsável por preservar a memória das variadas manifestações culturais tradicionais do município. De acordo com o diretor, Weliton Alves da Cruz, são catalogados pela casa, em conjunto com a Secretaria da Cultura da cidade, diferentes tipos de grupos que mantêm essa memória ancestral viva.


Estes são os chamados Grupos Folclóricos, coletivos da cultura popular que possuem uma tradição secular, existindo desde o período colonial. Em suas manifestações, utilizam diversos elementos trazidos direto de seus locais de origem pelos seus ancestrais, como músicas, danças, roupas e instrumentos musicais. Em consonância, existem também os Grupos Parafolclóricos, que são originados a partir dos Folclóricos, como uma forma de conservar sua memória, garantindo sua longevidade e transmitindo suas práticas para as gerações futuras. 


Porém, o trabalho realizado na Casa do Folclore não se resume somente às manifestações culturais em si, mas também destaca as pessoas que participam delas e preservam suas tradições. Isso é refletido no próprio nome dado à casa, conforme diz seu diretor: “Ela recebeu o nome de Zé Candunga em homenagem a um personagem que tanto contribuiu com a cultura popular aqui do município. Ele nasceu em uma cidade de círculos vizinhos, que foi em Riachuelo, e se destacou muito bem aqui em Laranjeiras, sendo líder de grupos folclóricos como o Lambe-Sujo, Chegança e Cacumbi”.


Além de Zé Candunga, a Casa do Folclore homenageia outros mestres da cultura popular


Outra instituição de Laranjeiras que também é produtora e preservadora de uma memória ancestral é a Cozinha de Vó, localizada no Quilombo Mussuca. “É um espaço que trabalha a comida para além do prato, entendendo que comer não é só nutrir-se, mas também alimentar essa memória e os diversos saberes e fazeres que atravessam aquele alimento para que ele chegue até aquele prato”, relata o coordenador, Alexandre Marques.


O restaurante reúne em sua equipe as mulheres quilombolas da comunidade para preservar suas tradições culinárias ancestrais, e foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do município em 15 de maio de 2026. Entretanto, Alexandre afirma que ainda precisam haver mais políticas afirmativas e que valorizem a cultura e a identidade da Mussuca por parte dos gestores, pois, de acordo com ele, “todos os recursos ficam concentrados na parte do centro”.


A Cozinha de Vó é uma prova viva de que a culinária também é uma forma de resistência.


Desafios para a preservação e a resistência da identidade 


Relatos como os de Weliton e Alexandre, além da própria paisagem urbana, expõem uma fragilidade na forma como o Patrimônio Cultural de Laranjeiras é preservado, de modo que alguns grupos, manifestações e prédios parecem ser preteridos pelos órgãos públicos, enquanto outros recebem maior destaque. De acordo com Janaina Mello, um dos maiores desafios para essa conservação é justamente que a cultura é entendida pelos governantes como um gasto, e não um investimento. Essa mentalidade errônea costuma ocasionar uma redução nos orçamentos, influenciando diretamente na quantidade e na qualidade das políticas públicas.


A professora também reforça a necessidade de articulação entre as secretarias municipais, sobretudo as secretarias da Cultura e Turismo e da Educação, para que possam se realizar iniciativas voltadas à educação patrimonial: “Quando a gente fala em cultura, a gente fala justamente em trabalho coletivo, em conexões, em multidisciplinaridade. Então, a gente precisa de todo mundo trabalhando por aquele ideal da preservação cultural”.


 Divergências entre órgãos públicos retarda a restauração da arquitetura e da memória


Essa falta de concordância e diálogo também se aplica à relação da gestão municipal com alguns órgãos federais, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o que acaba gerando inconsistências na conservação patrimonial, sobretudo no aspecto material. É o que diz o secretário de Cultura e Turismo de Laranjeiras, Leomax Célio da Silva Santos: “É um órgão que às vezes acaba até dificultando os nossos trabalhos, por não ter  a quantidade de profissionais necessários para abranger todo o campo arquitetônico do Estado de Sergipe”. 


Entretanto, o secretário reforça que, apesar das dificuldades, a importância da instituição não deve ser descartada. Mas ele reforça que a burocracia envolvida é o maior problema da restauração dos prédios históricos da cidade. “A gente entende isso, que a gente não pode fazer de qualquer jeito, que a gente precisa de técnicos à disposição, mas a demora é demais”, afirma sobre o processo.


A ancestralidade é um aspecto essencial para a construção das tradições culturais.


Quanto à preservação do patrimônio imaterial, Leomax confirma que o município possui mais autonomia, possibilitando a gestão a ter ações mais diretas. Nesse sentido, a Secretaria é a responsável por fomentar todas as manifestações culturais, por meio de subsídios e eventos, como o Encontro Cultural de Laranjeiras. Todavia, dentro desse aspecto da cultura tradicional, permanece o destaque para o Centro Histórico, em detrimento das demais áreas de Laranjeiras.


O secretário afirma que essa preferência se deve a uma concentração maior das manifestações culturais no centro, enquanto as demais localidades “não têm tanto patrimônio material”. Porém, ele mesmo reconhece a importância cultural de algumas regiões, como o Quilombo Mussuca, devido à presença dos grupos de Samba de Parelha e de São Gonçalo, além da sua tradição culinária, como é evidenciado pela Cozinha de Vó, apesar de serem “pouco exploradas”. 


Tais afirmações reforçam a discrepância entre a forma como diferentes aspectos do patrimônio cultural de Laranjeiras são vistos pelos órgãos públicos. Por questões organizacionais, mas também históricas e sociais, sua preservação não é realizada de forma igualitária, o que acaba prejudicando não só o que é deixado de lado, mas toda a comunidade.

EXPEDIENTE


Apuração:

Alexandre Accioly, Ketelen Clarice, Raysa Williany e Rivia Almeida


Redação da reportagem:

Alexandre Accioly


Edição:

Evy Oliver


Fotografia:

Alexandre Accioly, Ketelen Clarice e Rivia Almeida


Audiovisual/Redes Sociais:

Raysa Williany e Rivia Almeida


Redação dos Webstories:

Ketelen Clarice


Produção dos webstories:

Rivia Almeida



 
 
 

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ZONA CONTEXTO é uma produção laboratorial EXCLUSIVA, da disciplina Laboratório de Jornalismo Integrado I, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.

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