AS HISTÓRIAS QUE O BARRO AINDA ESCONDE
- 20 de jul.
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Atualizado: 23 de jul.
Foto: Fabrício Fernandes
Se hoje Santana do São Francisco é reconhecida como a Capital Sergipana do Artesanato, nem tudo o que se sabe sobre essa tradição é amplamente aceito. A própria origem do fazer artesanal ainda desperta debates entre pesquisadores, artesãos e documentos oficiais.
Embora seja uma tradição secular, o artesanato de Santana de São Francisco enfrenta desafios que vão muito além da falta de políticas públicas voltadas para o setor. A atividade também esbarra em contradições históricas sobre sua própria origem. Nossa equipe buscou registros oficiais e as fontes oficiais atestam certa imprecisão a respeito da origem.
De acordo com dados do IBGE e com informações disponíveis no site oficial da Prefeitura de Santana de São Francisco, o primeiro artesão do município teria sido José Feliciano Passos, no início do século XX. Já entre os próprios artesãos, a história mais difundida aponta João Igreja como fundador da tradição, por volta de 1850.
No entanto, o historiador e pesquisador da historiografia do município, Roberto Batista, natural de Santana, contesta ambas versões. Segundo ele, documentos históricos mostram que João Igreja nasceu apenas em 1870, o que torna impossível que tenha iniciado a atividade em 1850. O pesquisador afirma ainda que o primeiro registro conhecido de uma peça de barro é de 1859, mas sem identificação de autoria.
Para Roberto Batista, o artesanato santanense surgiu de forma espontânea, impulsionado pela necessidade. As primeiras peças seriam formas de barro produzidas para atender aos engenhos da região, que podiam ser de flandre (zinco) ou de barro, opção mais econômica e com matéria-prima amplamente encontrada na região. Foi a partir dessa atividade que a tradição artesanal começou a se desenvolver.
Uma dessas fazendas açucareiras, a Fazenda Carrapicho, seria de posse de Pedro Gomes, o qual é apontado como o fundador do antigo povoado Carrapicho que depois veio a se tornar o município de Santana do São Francisco, em 6 de abril de 1993, após sua emancipação política e separação do município de Neópolis. Roberto atrela essa conquista política à importância e reconhecimento que o antigo povoado adquire a partir da sua vasta produção de artesanato de barro.
O historiador também afirma que cerca de 90% das informações divulgadas sobre a história de Santana de São Francisco estão incorretas. Segundo ele, já houveram iniciativas para atualizar e corrigir esses dados junto ao poder público e ao IBGE, mas, até o momento, nenhuma alteração foi realizada.

O acabamento manual confere singularidade a cada peça produzida.
Entre o Barro e o Sacro
Se parte da história do artesanato santanense ainda permanece envolta em divergências, as próprias peças produzidas pelos artesãos ajudam a preservar uma memória construída ao longo de gerações. Para além de objetos utilitários e decorativos, as peças também expressam identidade, ancestralidade e diferentes manifestações de fé. É nesse encontro que ganha destaque uma das vertentes mais singulares da produção santanense: o barro como instrumento sacro.
Antes mesmo das primeiras obras cerâmicas serem moldadas na capital sergipana do artesanato, o barro já tinha relações milenares com o sagrado em diferentes culturas, como defende Claudefranklin Monteiro, historiador e pesquisador lagartense. Ele conta que, na tradição cristã, Deus é constantemente retratado como o “oleiro” do homem, tendo o moldado a partir do “pó da terra”, como se evidencia no Livro do Gênesis e no Livro de Jó (10:8-9) o qual diz: “Mas agora, Ó Senhor, tu és nosso Pai, nós somos o barro e tú és nosso oleiro, e todos nós somos obra das tuas mãos ”.
Essa relação do divino com o barro ultrapassa as escrituras sagradas e se materializa no dia a dia de quem utiliza a arte como forma de conexão espiritual. O oleiro e marombeiro Wilson Capilé é conhecido por suas peças religiosas, que incluem santos católicos, estátuas de orixás, entre outras obras. Sua produção varia entre miniaturas para altares de igrejas e domicílios ou obras de grande porte para jardins e ornamentações. Algumas de suas esculturas chegam a ultrapassar os dois metros de altura.
Outra obra religiosa, amplamente conhecida e destaque na mídia nacional, são os presépios natalinos em miniatura, produzidos no ateliê de Douglas Moura, dono da peça que concedeu o IG a Santana.
Claudefranklin defende que essa relação mística com o barro é ainda mais forte no nordeste, “O barro, ele é religioso, sobretudo no Nordeste. As primeiras obras de São Francisco eram de barro, os presépios..”, conta o historiador. Essa afirmação demonstra ainda mais a afinidade entre Santana do São Francisco, o barro, o artesanato e o sagrado.
Durante a entrevista, Claudefranklin partilha suas memórias afetivas da infância, quando passava as férias na zona rural de Lagarto, município situado na região centro-sul do estado, e brincava diariamente com o barro, fazendo “bois de barro”. O primeiro foi dado por seu pai, que o presenteou com um boi de barro de Santana, o qual ele guarda há mais de 40 anos. Com medo de quebrá-lo, ele o deixava em casa e ao ir para o interior confeccionava seus próprios brinquedos com o barro e a lama do terreno.
“Naquele momento, fazendo meus bois de barro com a lama do terreno, eu percebia e fazia até uma relação da criatura e do criador, na perspectiva de gênesis. Assim como Deus teria criado o ser humano a partir do barro, estava lá eu, menino, repetindo o gesto do criador. Pegando a terra, juntando com a água, fazendo o barro e desse barro modelando meu boi”, relata o historiador.
A relação do barro com o sacro perpassa diferentes vivências, culturas e credos. Para além das escrituras sagradas do cristianismo, a matéria-prima também aparece nas narrativas sagradas da tradição espiritual do povo yorubá. Os ensinamentos são transmitidos historicamente pela oralidade e foram assimilados por diversas religiões de matriz africana.
Diferentemente da tradição judaico-cristã, em que Deus cria diretamente o homem do barro, na cosmogonia iorubá essa tarefa é confiada a um orixá específico: Obatalá, uma das manifestações do orixá Oxalá.
Segundo um dos itans – histórias dos orixás transmitidas oralmente – mais conhecidos, o deus Olódùmarè encarregou Obatalá de criar os seres humanos. Para isso, ele moldou figuras de barro retiradas da terra. Depois que os corpos estão prontos, Olódùmarè sopra neles o èmí, o princípio vital ou sopro da vida, transformando-os em seres humanos. Nessa narrativa, o barro representa a matéria primordial, enquanto a vida propriamente dita vem da força divina.
Em Santana, algumas olarias e ateliês destinam sua produção quase exclusivamente para a confecção de peças sacras para religiões de matriz africanas, os ibás. A principal representante desse nicho é a artesã Cristiane do Santos, de 48 anos, que junto ao seu marido José Francisco fundou o Ateliê Beira-Rio, principal exportador de ibás da capital do artesanato.
Cristiane relata que, por mês, o ateliê exporta mais de cinco caminhões de ibás e outros utensílios religiosos, como o alguidar - algo em torno de 5 mil peças mensais. O ateliê Beira-Rio conta atualmente com oito funcionários, entre homens e mulheres. A equipe se divide nas diversas etapas da produção das peças, como a do tracejo, momento em que os marajoaras, responsáveis por “riscar” os desenhos das peças moldadas mas ainda cruas, fazem os traços e desenhos presentes nas obras de barro, e na etapa final de pintura e envernização das peças, feita majoritariamente por mulheres sob o comando da artesã Cristiane.
Durante a visita, Cristiane levou nossa equipe de reportagem ao seu terreiro, localizado ao lado da olaria. Embora dividam o mesmo espaço, a artesã faz questão de nos elucidar sobre a separação de seu templo religioso do seu ambiente de trabalho. Além de artesã, Cristiane é mãe de santo.
Ela conta que seu marido confeccionou diversas peças presentes em seu terreiro, como orixás de barro, a “cidade de sua Jurema” e inúmeros utensílios religiosos. Algumas obras feitas unicamente para o espaço ultrapassam os dois metros de altura. “Uma coisa é meu trabalho como artesã, outra é a minha religião. Aqui é um lugar sagrado. Tudo isso foi pensado para o terreiro. Não são peças para vender, fazem parte da nossa fé.” diz.
Atualmente o ateliê comercializa ibás e alguidares para diversos terreiros sergipanos espalhados por todo estado, além de exportar para os estados de Alagoas e Pernambuco. Ela destaca que suas obras chegam em Aracaju a partir dos terreiros de Mãe Rita e Mãe Dete, à Penedo pelo terreiro do Pai Wilson e em Garanhuns nos templos de Pai André e no de Logun Edé.
Assim como os santos católicos encontram espaço em igrejas, jardins e residências, os ibás produzidos em Santana do São Francisco percorrem diferentes estados brasileiros para integrar terreiros e espaços sagrados das religiões de matriz africana. Em ambos os casos, o barro deixa de ser apenas matéria-prima e passa a assumir um significado que ultrapassa o valor artístico das peças, tornando-se também instrumento de fé e expressão religiosa.
Independente da tradição religiosa que representam, as peças produzidas em Santana revelam que o barro ocupa um lugar que vai além da técnica artesanal. Moldado pelas mãos dos oleiros, ele materializa narrativas de criação, preserva memórias coletivas e aproxima diferentes formas de espiritualidade. Entre santos, presépios, orixás e ibás, o barro santanense demonstra que, antes de se transformar em arte, também se faz linguagem, identidade e manifestação do sagrado.
Peças que unem religiosidade e tradição com o artesanato de Santana.
Quando o reconhecimento não basta
A diversidade da produção artesanal evidencia que o barro santanense extrapola o valor material das peças e ocupa um lugar central na identidade cultural do município. No entanto, apesar dessa relevância histórica, artística e simbólica, compreender a real dimensão da atividade ainda representa um desafio. A própria apuração da reportagem revelou a ausência de informações consolidadas sobre o setor e as dificuldades para mensurar o impacto econômico do artesanato em Santana do São Francisco.
Apesar da importância cultural e econômica atribuída ao artesanato de Santana, durante a apuração não foi possível localizar dados e números sobre a quantidade exata de artesãos presentes no município e nem indicadores econômicos de quanto é gerado na cidade a partir da comercialização das obras produzidas. Um dos fatores que dificultam essa catalogação é a falta de cadastro dos membros da categoria no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro (SICAB), registro oficial dos artesãos, como defende o secretário adjunto de Turismo de Santana, Genilson Aragão.
“O cadastro no Sistema de Informações Cadastrais do Artesanato Brasileiro é a única fonte que a prefeitura teria acesso para poder reunir esses números, mas, devido a relutância da classe em aderir ao cadastro, esse recrutamento de informações se faz inviável” , diz o secretário. Genilson estima que haja mais de 600 pessoas ligadas à atividade artesanal, não somente artesãos mas todos os envolvidos em alguma etapa da longa cadeia produtiva, seja como extrator de barro, carroceiro, artesão, oleiro, pintor ou atravessador.
O secretário atribui a resistência em aderir ao SICAB a um errôneo medo, de significativa parte dos artesãos, de perder benefícios sociais, como o bolsa família, auxílio pesca, ou então serem destituídos de cargos públicos. Uma vez que, segundo Aragão, muitas das pessoas envolvidas na atividade cerâmica não vivem somente do artesanato e possuem uma dupla função para poder agregar renda. No entanto, Genilson reforça que estar cadastrado no SICAB e possuir a carteira de artesão não faz com que o cadastrado perca o direito de receber auxílios governamentais, nem o impossibilita de possuir outras ocupações ou fontes de renda.
Além disso, o secretário comenta que, atualmente, para a prefeitura, o artesanato não traz retorno financeiro direto, pois poucos produtores realizam emissão de nota fiscal, exceto em situações pontuais de grandes volumes de venda. “Não há dinheiro gerado pelo artesanato para que possa ser destinado para o próprio artesanato”, afirma. Todavia, reforça que é a principal fonte de renda dos santanenses.
Por não ser uma atividade fiscalizada, a gestão municipal não tem registros dessa arrecadação. Mas embora a atividade artesã não possua valor fiscal oficial para o município, Genilson afirma que ela é uma das principais responsáveis por movimentar o turismo local. Ele destaca que a cidade recebe anualmente cerca de 70 mil turistas e faz questão de pontuar que desse total, 75% são visitantes, pessoas que só estão de passagem em Santana, atraídas sobretudo pelo artesanato e tendo como ponto de parada central o Centro Comercial de Artesanato.
“Estamos tentando fazer com que o turista suba a ladeira de Santana”, diz o secretário, que acrescenta enfatizando que as olarias já estão sendo inseridas no Roteiro do Turista, para que os visitantes possam de fato adentrar a cidade e perceber como ela respira barro. Os turistas têm a possibilidade de participar de experiências imersivas, as quais já ocorrem assim que sobem a ladeira e podem confeccionar suas próprias obras artesanais no ateliê do marombeiro Capilé.
Apesar da grande relevância de suas produções para o município, os artesãos convivem com dificuldades que afetam diretamente sua renda. Durante o período de inverno e de chuvas, a produção diminui significativamente, já que a ausência do sol dificulta a secagem das peças. Eles defendem a criação de algum tipo de auxílio financeiro para compensar as perdas nesse período, como relatam os oleiros Amoroso e Capilé.
O desafio começa agora
Das margens do Rio São Francisco às mãos dos oleiros, o barro percorre um caminho de tradição e resistência. A Indicação Geográfica representa um marco importante, e apesar de não resolver por si só os desafios enfrentados pelos artesãos de Santana do São Francisco, ao ampliar a visibilidade de Santana e de seu patrimônio artesanal, esse reconhecimento impulsionou uma maior mobilização do poder público em torno da atividade. Se antes inviabilizavam esse fazer secular, hoje estimulam a criação de projetos, investimentos e ações de divulgação voltadas ao fortalecimento da produção da Capital Sergipana do Artesanato.
Talvez seu maior significado seja lembrar que o verdadeiro patrimônio de Santana não está apenas nas peças expostas, e sim nas pessoas que continuam transformando barro em memória. Enquanto houver quem retire o barro da jazida, faça girar o torno e acenda o forno, a cidade seguirá respirando barro.
EXPEDIENTE
Apuração:
Ana Alice Prado , Fabiana Santiago, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos
Reportagem:
Ana Alice Prado, Fabiana Santiago, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos
Edição:
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Fotografia:
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Produção:
Fabiana Santiago
Redação:
Ana Alice Prado
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Fabrício Fernandes
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Design e edição:
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Roteiro:
Fabrício Fernandes
Reportagem:
Fabiana Santiago e Fabrício Fernandes
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Ana Alice Prado e Fabrício Fernandes
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Roteiro:
Thaila Ramos
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Ana Alice Prado, Fabrício Fernandes e Thaila Ramos
Edição:
Thaila Ramos





























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