O LEITE NOSSO DE CADA DIA
- 20 de jul.
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Atualizado: 21 de jul.
Com produção diária de quase 2 milhões de litros de leite, os pequenos produtores são a base da Bacia Leiteira Sergipana, mas a que custo?

“Eu mesmo nunca assinei uma carteira”, diz seu Manoel, de 58 anos, dono de quatro vacas, Pretinha, Redonda, Rio Negro e Branquinha. É delas que vem parte do sustento do sertanejo, que exibe um sorriso tímido no rosto e veste uma camisa estampada com a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Para ele, ser produtor nunca foi uma escolha, mas uma herança. “O ramo da gente é esse aqui, desde pequeno acompanhando os pais na roça, fazendo esse sirviço”, conta. Seu Manoel não esconde as dificuldades da atividade. Pelo contrário: reforça que muitos dos custos da produção sequer entram na conta e passam despercebidos por quem consome apenas o produto final.
Assim como muitos pequenos produtores, ele ainda realiza a ordenha manualmente. Aos poucos, porém, a prática vem sendo substituída por equipamentos que reduzem o tempo de trabalho e aumentam a eficiência da produção. Nesta cadeia, cada vez mais moderna, qual é o espaço que sobra para os pequenos produtores que ainda não conseguem acessar as novas tecnologias?
De acordo com relatório da Secretaria Municipal de Agricultura e Pecuária de Nossa Senhora da Glória, município localizado no Alto Sertão Sergipano, atualmente, 11 indústrias de laticínios operam de forma regular. Entre elas estão empresas como a Natville, Ouro Bom e Piracanjuba. Para os produtores, no entanto, a relação é marcada por intensa dependência. A comercialização acontece por um acordo verbal firmado por ambas as partes, sem vínculos empregatícios ou direitos trabalhistas. O leite é recolhido diariamente pelos caminhões-tanque, mas o valor pago pelo produto varia conforme as condições do mercado.
“Quem define é o mercado. A gente paga pela qualidade, mas é um preço-base. Um percentual dele é pela qualidade. Quem tem mais qualidade recebe mais do que aqueles que não têm”, explica o responsável técnico e diretor geral da Natville, Flávio Dantas. Segundo ele, a importação também influencia o valor pago ao produtor.
Na prática, isso significa que os preços recebidos nem sempre acompanham os gastos da atividade. Ração, medicamentos e gastos não previstos afetam diretamente a renda de quem está na base da cadeia produtiva. “É um valor que a gente tenta a todo momento uma valorização, porque os custos são altos e os custos não diminuem quando o valor do litro baixa”, diz o advogado e pecuarista, Augusto Daniel.
Da pastagem à comercialização, a cadeia do leite movimenta o sertão sergipano.
A presença das empresas passa a ser uma faca de dois gumes. Se, por um lado, garante mercado para a produção, por outro, exige um padrão de qualidade e investimentos que nem todos podem acompanhar “É uma causa muito complicada porque a gente pensa em investir, em trazer melhorias para a fazenda, mas esbarra nessa imprevisibilidade. Não temos uma previsão exata de quanto vamos receber”, completa Augusto.
Mesmo com a presença das grandes indústrias, a produção artesanal também se destaca na região. Em praticamente todas as esquinas do centro de N. S. da Glória é possível encontrar uma loja que fabrica ou revende queijos e outros derivados do leite.
Segundo o coordenador de Desenvolvimento Rural da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), Ary Osvaldo, o último levantamento sobre as queijarias do Alto Sertão foi realizado em 2010 e identificou apenas 102 estabelecimentos. A expectativa é que um novo levantamento seja realizado em 2026.
Na época, eram exigidas três licenças para a fabricação de laticínios: licença inicial, licença de instalação e licença de operação. As mesmas exigências eram impostas tanto às grandes indústrias quanto às pequenas queijarias, o que contribuiu para que muitos produtores permanecessem na informalidade. “É um absurdo. Você exige da Natville ou da Betânia a mesma coisa que um produtor de até 2 mil litros?!”, questiona Ary Osvaldo.
Um bom exemplo está no relatório técnico divulgado pelo Serviço de Inspeção Municipal (S.I.M.) de 2025 do município de Glória, órgão responsável pela inspeção e fiscalização de produtos de origem animal. De acordo com o documento, apenas oito fábricas de laticínios (queijarias) se encontravam cadastradas no sistema.
UMA PRODUÇÃO EM LARGA ESCALA
Quando a produção de leite começou, em 1996, na família de Flávio Dantas, filho dos fundadores de uma das maiores empresas de laticínios do Nordeste, ele não imaginava o legado e o impacto que essa atividade teria nos anos seguintes. Localizada em N. S. Glória, a empresa produz atualmente cerca de 1,2 milhão de litros de leite por dia, movimentando a sociedade, a economia e a cultura local.
A região do Alto Sertão, ao longo dos anos, especializou-se na produção do leite e, devido às condições agroclimáticas, propícias à atividade, desenvolveu mecanismos para que essa atividade fosse lucrativa tanto para a população local quanto para o comércio.
De acordo com relatório da Secretaria Municipal de Agricultura e Pecuária de N. S. Glória, juntas as empresas de laticínios da região processam cerca de 1,9 milhão de litros de leite, impulsionadas, sobretudo, pela força da agricultura familiar, a base de toda a cadeia produtiva do setor, como aponta Ary Osvaldo, ao destacar que a particularidade de Sergipe na produção leiteira é “realmente os pequenos produtores”.
Segundo os últimos dados das estatísticas da bovinocultura do leite, divulgados pela Emdagro, o total de leite produzido em Sergipe foi de 347,6 mil litros, em 2019, para 678,5 mil litros, em 2024. A entidade também revelou que o valor da produção estadual alcançou R$1.574,3 mil em 2024, representando um aumento de 250,6% em relação a 2019, o que evidencia uma considerável expansão da produção leiteira.
Ao mesmo tempo, três municípios da microrregião transformaram a produção leiteira em um dos principais motores da economia sergipana, com Poço Redondo, Porto da Folha e Nossa Senhora da Glória representando cerca de 84% da produção estadual e do valor econômico gerado pela atividade em 2024. Embora as empresas de laticínios estejam localizadas em Nossa Senhora da Glória, a dinâmica econômica e produtiva não é movimentada somente pelo município-sede, mas também pelas demais cidades da microrregião.
Por: Brenno Phelipe, estudante de SI. Fonte: Bovinocultura do Leite| Informações Estatísticas- 2019 a 2024.
Para a população local, tamanha produção significa aquecimento na economia, como explica a vice-coordenadora do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Sergipe, Campus do Sertão, Glenda Marinho. “Com a presença dessas indústrias, há geração de renda para os trabalhadores do setor e para o produtor, que começa a produzir mais para poder atender a demanda e a expectativa da indústria”, explica.
De acordo com documento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), historicamente, o sertão sergipano cresceu a partir dos rebanhos bovinos, movimento que permitiu a instalação de indústrias como a da Betânia, em 1985, no município de Glória. Os dados e o histórico do Sertão Sergipano revelam uma região que, apesar das dificuldades, a exemplo da seca e dos longos períodos de estiagem, consolidou-se como referência na atividade leiteira e ganhou notoriedade a partir da força dos rebanhos, como explica a professora do Departamento de Zootecnia da UFS, Campus do Sertão, Lígia Barreto.
“Se você chegar aqui em uma loja de roupas, em uma lanchonete e, por exemplo, for um ano em que a chuva está escassa, os comerciantes vão falar do leite, dizer: ‘Poxa, vai reduzir a produção de leite e o pessoal vai comprar menos’. Tudo gira em torno do leite aqui, com certeza”.
O VILÃO DO CLIMA
Se a instabilidade do mercado já preocupa o agricultor familiar, as incertezas climáticas ampliam ainda mais os desafios no campo. Nos próximos meses, um novo fator de preocupação entra no radar dos produtores: o El Niño.
O fenômeno climático natural é caracterizado pelo superaquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere nos padrões do vento, das chuvas e das temperaturas em quase todo o planeta. No Nordeste do Brasil, o fenômeno costuma reduzir as chuvas e elevar as temperaturas, o que deixa a região ainda mais exposta a longos períodos de seca.
A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), um dos principais centros de monitoramento climático do mundo, já confirmou a formação do fenômeno e agora acompanha sua evolução. As projeções indicam uma alta probabilidade de que o El Niño atinja forte intensidade entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Diante das previsões de um possível fortalecimento do fenômeno e da preocupação com a redução das chuvas em algumas regiões do país, especialistas já acompanham os possíveis reflexos sobre a pecuária. A seca prolongada impacta a oferta e a qualidade da água e dos alimentos para os animais, prejudicando o manejo do rebanho e, consequentemente, derrubando o rendimento e a qualidade da produção leiteira.
No Alto Sertão Sergipano, a seca não é uma novidade, a região de Caatinga convive com a escassez hídrica constantemente, porém quando fenômenos climáticos se intensificam, os impactos são ampliados e exigem maior capacidade de adaptação no campo.
Entre falta de chuva e incertezas, o sertão enfrenta os desafios do clima
Glenda destaca a importância do planejamento e do manejo antecipado dentro das propriedades rurais. “As estratégias são planejamento e gerenciamento das propriedades. Silagens, para que possa haver demanda de alimentos, além da utilização de vegetações e forragens que são do bioma caatinga e que podem ser utilizadas na alimentação desses animais. São com essas estratégias que eles vão superando até que possa vir a época das chuvas e com isso iniciar um novo ciclo ”, explica.
Diante desse cenário de atenção ao clima, o Governo do Estado de Sergipe anunciou a instalação de uma sala de situação para monitorar os efeitos do fenômeno El Niño no território sergipano. A iniciativa reúne setores como meio ambiente, agricultura e defesa civil com a proposta de integrar o acompanhamento dos cenários climáticos e articular ações preventivas diante de possíveis eventos extremos.
ENTRE A UNIVERSIDADE E A PORTEIRA
O Campus do Sertão da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em Nossa Senhora da Glória, surgiu a partir de reivindicações populares para que os filhos dos sertanejos pudessem cursar o ensino superior sem deixar a região. Onze anos após sua implantação, a instituição tornou-se uma das principais responsáveis pela formação de profissionais que abastecem a cadeia produtiva do leite na região, apostando na Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP) como metodologia de ensino.Pela metodologia, os estudantes enfrentam problemas reais desde o início da graduação, aproximando a formação acadêmica da rotina do campo. Voltado exclusivamente às Ciências Agrárias, o campus oferece quatro cursos: Engenharia Agronômica, Medicina Veterinária, Zootecnia e Agroindústria. Segundo a professora Lígia, o aumento da demanda por mão de obra qualificada em Glória absorve rapidamente os egressos. “Eles praticamente não ficam sem trabalho. É toda uma cadeia produtiva que gira em torno do leite, do milho e da agropecuária”, afirma.
A UFS também atua diretamente com pequenos produtores por meio do PAT UFS (Programa de Assistência Técnica e Gerencial), vinculado ao Núcleo de Estudos Agro Leite Sertão. O projeto realiza visitas mensais às propriedades rurais, oferecendo assistência técnica, diagnóstico da produção e capacitação dos produtores.
Lígia destaca que o fortalecimento da cadeia leiteira está relacionado ao trabalho de melhoramento genético desenvolvido pela Emdagro e, desde 2015, à atuação da UFS na capacitação dos produtores no manejo do rebanho. Embora o número de cabeças tenha diminuído nos últimos anos, a produtividade por vaca em Sergipe aumentou e superou a média nacional. Em 2024, enquanto o Brasil registrou média de 2.231 litros por cabeça/ano, Sergipe alcançou 2.809 litros, conforme pesquisa da Emdagro.
Segundo Ary Osvaldo, Coordenador de Desenvolvimento Rural da Emdagro, o aumento da produtividade da pecuária leiteira também tem como base o “melhoramento genético, a alimentação e a sanidade”. O primeiro consiste no cruzamento entre as vacas das raças Holandesa e Gir, unindo alta produção e resistência ao calor. O segundo prioriza o armazenamento de forragens e o uso de alimentos de alta digestibilidade. Já o terceiro foca na vacinação preventiva do rebanho.
Investimentos em infraestrutura para ampliar a produtividade da cadeia leiteira também têm sido realizados no Alto Sertão Sergipano. Os governos estadual e federal destinaram centenas de milhões de reais a obras no setor. Entre elas está a Adutora do Leite, empreendimento de quase R$ 600 milhões incluído no Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que prevê a implantação de 123 quilômetros de tubulações para levar água do rio São Francisco à bacia leiteira do estado.
ONDE A ESTRADA TERMINA
Embora apresentada como uma das maiores obras estruturantes de Sergipe, com potencial para beneficiar cerca de 23 mil famílias, a Adutora do Leite ainda está em fase inicial de execução. A obra teve a ordem de serviço assinada em maio de 2026 e, caso o cronograma seja cumprido, deverá ser concluída em maio de 2029, após um prazo contratual de 1.080 dias.
Outro empreendimento voltado ao fortalecimento da cadeia leiteira é a Rota do Leite, que reúne mais de R$ 122 milhões em investimentos para a pavimentação de 55,58 quilômetros de rodovias estratégicas para o escoamento da produção leiteira. Autorizada em janeiro de 2024, a obra foi dividida em quatro etapas e avança em ritmos distintos.
O primeiro trecho, entre os povoados Jiboia e Lagoa dos Porcos, em Gararu, está praticamente concluído. O segundo, até o povoado Pias, encontra-se em fase de mobilização para o início da terraplenagem. O terceiro, que segue até o entroncamento com a SE-170, em Feira Nova, ainda passa pela fase de licitação. Já o quarto, entre o povoado Mesinha e Nossa Senhora da Glória, está em fase inicial de terraplenagem. Apesar do avanço da primeira etapa, o governo ainda não divulgou um cronograma público para a conclusão integral do projeto.
Investimentos como esse geram dúvidas sobre quem são os principais beneficiados. Enquanto representantes das indústrias de laticínios defendem que a população se beneficia indiretamente pela geração de empregos, pequenos produtores como seu Manoel dizem que as melhorias nunca chegaram a beneficiá-lo. “Eu nunca fui beneficiado por nada assim. Ninguém aqui da região. Essas coisas aí quando vem só vai para os peixão”.
EXPEDIENTE
Apuração
Isabella Dourado, Luelly Vitória, Natalia Santiago e Thiago Correia
Reportagem
Isabella Dourado, Luelly Vitória, Natalia Santiago e Thiago Correia
Edição
Isabella Dourado, Luelly Vitória, Natalia Santiago e Thiago Correia
Fotografia
Luelly Vitória e Natalia Santiago
Infografia (apuração e design)
Luelly Vitória
Brenno Phelipe, estudante de Sistema de Informação (colaborador)
Audiovisual/Redes Sociais
Isabella Dourado, Luelly Vitória, Natalia Santiago e Thiago Correia
METODOLOGIA DO PROCESSAMENTO E VISUALIZAÇÃO DE DADOS
Para a elaboração da infografia da reportagem, foram consultados os dados disponíveis no relatório "Bovinocultura do Leite Informações Estatísticas - 2019 a 2024”, produzido pela Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro). Em conjunto com o estudante de Sistemas de Informação, Brenno Phelipe, desenvolvemos o mapa interativo a partir da plataforma de inteligência artificial Gemini Pro 3.1, à qual foi solicitada a geração de um código em HTML com a visualização de um mapa que destacasse os municípios do Alto Sertão Sergipano e seus respectivos limites territoriais. Após a geração do mapa, inserimos manualmente, no código, os dados sobre a produção leiteira de 2024 de cada município da região, a partir do estudo da Emdagro, mencionado anteriormente. O processo de produção do mapa teve início em 29 de junho e foi concluído em 4 de julho.























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