O BARCO VOA DO QUILOMBO
- 20 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 7 dias
Em Estância, o Quilombo Porto D’Areia mantém à tradição que navega entre gerações, o Barco de Fogo e resiste diante da invisibilização do sistema

A 70km da capital de Sergipe, Aracaju, acontece uma tradição que corre entre os céus da cidade de Estância. O Barco de Fogo ilumina as noites escuras do município durante os festejos juninos, encantando turistas e moradores. A celebração é reconhecida por lei e tem até uma data de comemoração, o dia 11 de junho. Mas a beleza da exposição dos barcos, no forródromo da cidade, secundariza uma história de resistência quilombola e luta por melhores condições de trabalho, que atravessa gerações.
O Porto dos barcos
Às margens do Rio Piauí, o quilombo Porto D’Areia tem sua história intrinsecamente ligada à fundação do município de Estância. O nome do local surge pela presença de um Porto, usado durante o século XVIII para o escoamento de mercadorias e transporte de embarcações entre a cidade e a capital de Sergipe, à época, São Cristóvão. Se durante alguns séculos o Porto atracou e zarpou embarcações, hoje nas suas ruínas e sem o apoio do poder público, resistem as produções do Barco de Fogo.
A história do barco que corta os céus da cidade começa através de Francisco da Silva Cardoso, conhecido como Chico Surdo. Morador da comunidade Botequim, próximo ao Porto D’Areia, tinha o sonho de ser marinheiro e realizava experimentos no mar. Segundo Wellington Nascimento, liderança quilombola, existem controvérsias em relação à criação do barco: “aqui mesmo na cidade existem controvérsias. Existem alguns estudiosos que não dão esse crédito a ele, mas o nome que prevalece é Chico Surdo”.
Wellington relata como o Barco de Fogo coexiste com várias outras expressões culturais, ao mesmo tempo em que seu destaque se torna maior que elas: “ele não consegue sobreviver sozinho porque, por trás, ou ao lado do Barco de Fogo, existem outras culturas que, assim, são prejudicadas porque o povo só vê o Barco de Fogo. Não sabe o que tem ao redor dele”.
Wellington é uma importante liderança de Sergipe. Foi através da sua luta, no início da década passada, que o território foi reconhecido como quilombola, em 2012. Segundo ele, era dentro do próprio quilombo onde os fogueteiros retiravam os materiais necessários para os barcos e os fogos — como bambu, madeira e argila —, algo que já não ocorre mais, devido à demarcação de terras privadas por forasteiros: “o fogueteiro daqui tem que ir buscar bambu em outras cidades, comprar. Nós precisamos da argila, do barro; nós temos na nossa comunidade, mas está cercada por fazendeiro, e o fazendeiro não deixa pegar”.
Fogueteiro em Estância é Mestre
Em Sergipe, aqueles que manipulam a pólvora e dominam o fogo são chamados de Fogueteiros, mas em Porto d’Areia, são Mestres. E não é à toa, já que para nascer, o barco de fogo passa pela produção dos fogos, moldagem, decoração e um conjunto de técnicas ancestrais.
O mestre Jorgevaldo Matuceli, conhecido como Bonito, trabalha há 40 anos com o barco e relata ter aprendido ao observar outros mestres ao lado do seu irmão, que hoje mora em São Paulo. “Todo mundo hoje bota barco. Eu aprendi com meu irmão, ele começou a fazer primeiro de que eu. Aí eu vendo ele fazer, digo: ‘Olha, rapaz, hoje a gente tá sabendo de fazer barco’. Aí, eu fui vendo ele fazendo, dizia: ‘rapaz, eu vou aprender também’. Aí eu fui começando [a] olhar como eram as manhas que ele fazia e teve um ano que a gente foi tirar umas madeiras. Ele disse: ‘mano, você já aprendeu?’ Eu digo: ‘rapaz, eu já aprendi já’”.
Atualmente, a Prefeitura de Estância promove um concurso onde é eleito o melhor barco de fogo do ano. Para concorrer ao prêmio deste ano, uma motocicleta zero quilômetro, Bonito e sua família começaram a produção com 15 dias de antecedência e investiram R$2.500 na embarcação.
Bonito relata que produzir o barco de fogo é um momento de comunhão com a sua família, que também contribuiu com a feitura do barco desse ano. “Meus filhos, vamos passar para eles, que vão para os filhos deles. Aí vai, a gente daqui uns dias morre e fica aí. Quando acabar a animação, a alegria, o filho já vai botar para frente, não pode deixar isso acabar de jeito nenhum. A alegria é isso aí”.
Para sua esposa, Selma Lima, manter a cultura viva e compartilhá-la com sua família é o que transforma a alegria das festividades. “Quando eu me ajuntei com o meu esposo, eu não sabia, mas depois fui aprendendo. Hoje eu sei muita coisa, então, fui ensinando a minha filha, e os outros filhos tudo sabem, graças a Deus, né? É nossa alegria. A tradição não pode acabar, não pode morrer de jeito nenhum”.
Dando continuidade à tradição, o barco de Bonito e sua família homenageia a cidade de Estância, considerada a Capital do Barco de Fogo, título que entra em destaque na decoração do barco. Repleta de personagens que representam os festejos juninos da cidade, o cenário conta com miniaturas de personagens em uma festa junina regada à comidas típicas, e muitos barcos de fogo. O barco em questão estava repleto de chuvinhas, um tipo de fogo de artifício que traz ainda mais brilho para o seu voo. Quase como uma alegoria de escola de samba, os barcos do campeonato trazem histórias, cultura, e muito brilho.
Sem cuidado, o fogo mata
Ao manipular os explosivos, a segurança é essencial para os mestres barqueiros. A maioria dos fogueteiros trabalham em casas sem eletricidade nas áreas mais afastadas do centro urbano. De acordo com a Norma Regulamentadora (NR) 19, feita pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em locais com manipulação de explosivos, apenas quatro pessoas podem trabalhar simultâneamente.
A NR determina também que o local de armazenamento desses explosivos deve ser feito em depósitos construídos especificamente para este fim, sejam eles temporários ou definitivos. Além disso, existem especificações estruturais como espessura das paredes, monitoramento eletrônico e sinalizações adequadas nos arredores do local.
Seu Bonito conta que a Prefeitura de Estância alugou uma fazenda para o trabalho coletivo dos mestres, mas reclama da falta de organização: “é uma bagunça, ninguém sabe trabalhar. Rapaz, eu digo isso: aqui para acontecer um acidente é ligeiro. Os fogueteiros de Estância não têm segurança”. Ele ainda relata o acidente que culminou na morte de um fogueteiro no início de 2026. Segundo Bonito, o homem fumava e bebia enquanto manipulava os fogos.
O voo derradeiro
Seu Mingo tem 73 anos, é natural de Lagarto e chegou ao quilombo ainda adolescente. Se dedica à produção do Barco de Fogo há mais de 20 anos. De antemão, avisa: “este ano, também, é o ano derradeiro”. Fogueteiro de mão cheia, aprendeu a arte de fazer foguetes assistindo outros mestres que moravam em sua rua: “quando eu cheguei, já encontrei fogueteiro aqui. Menino, já sabe como é, né? Eu, quando via aquilo, gostava e entrava no meio. Dizia: ‘quero aprender’, aí ele: ‘quer aprender?’, aí eu: ‘quero’, e ajudava eles”.
Mingo nos conta sobre como a coletividade faz o Barco de Fogo voar. São necessárias várias mãos durante a produção das dezenas de foguetes presentes no barco, mas a tradição está sendo ameaçada pelas máquinas: “a máquina, para umas partes, ela é boa porque diminui o trabalho, né? Mas, para outras partes é ruim, porque a cultura antigamente, já sabe como é, era tudo na mão. Com as máquinas, você estando sozinho, faz. E antigamente, se você não tivesse quatro, cinco pessoas trabalhando, você não fazia”.
No Quilombo Porto D´Areia, o Barco de Fogo nasce e voa por gerações acompanhado de outras tradições.
Além da presença das máquinas, seu Mingo aponta a falta de apoio dos governantes na confecção dos barcos. Ele conta que apenas neste ano foram apoiados através da Política Nacional de Fomento à Cultura Aldir Blanc, com o valor de R$2.400 — quantia irrisória, segundo ele. “Aí, quer dizer [se por acaso] a gente bote um barco, é 1.500 conto que a gente bota um barco, eu recebi 2.400, botei um barco de graça, né? Então não foi quase ajuda nenhuma, porque um barco que a gente bota com a dúzia de espada é 1.500 conto”.
Apesar da pouca ajuda governamental, seu Mingo está garantindo a continuação da tradição através de seu neto, que há dois anos trabalha na confecção dos barcos e foguetes. Ele afirma que, por mais que esteja se aposentando, vai ajudar o neto: “se fosse por mim, eu não fazia, mas como o meu neto gosta, aí eu digo: ‘faço’”.
Quem mexe com fogo, pode se queimar
Após eleger o melhor barco de fogo do ano, a comunidade se reúne em um festejo dedicado àqueles que fazem a festa acontecer. A Festa dos Fogueteiros é um evento tradicional que marca o encerramento do período junino, o momento de prestar homenagem aos companheiros que perderam a vida no ofício, e comemorar o fim de mais um São João. Na ocasião, os mestres fogueteiros soltam alguns de seus barcos mais simples, e dão início à soltura das espadas e buscapé noite adentro.
Apesar da importância de sua simbologia, a tradição da festa dos fogueteiros vem sendo ameaçada. Em nota recente, a Justiça do Trabalho, por meio do Ministério Público de Sergipe (MPE), determinou a proibição absoluta do uso dos fogos de artifício durante as festas. A medida prevê uma multa individual de R$10.000 para cada indivíduo que soltar os fogos, valor quatro vezes maior que o incentivo dado aos mestres fogueteiros para a confecção dos barcos. Além da determinação, foi estabelecido que a Associação do Quilombo Porto D’Areia deve se isentar da organização, incentivo a preparação e soltura de fogos.
Envolto de vários elementos da cultura, o Quilombo Porto D´Areia é ponto de partida dos Barcos de Fogo de Estância
A cultura nasce do povo, e a partir dele se mantém a tradição que movimenta o quilombo Porto d’Areia. Nadando contra o sistema para manter o barco voando, suas histórias refletem sua luta, memória e resistência. Muito mais que patrimônio cultural, o barco de fogo é tecnologia ancestral, herança quilombola e símbolo da cultura preta sergipana.
EXPEDIENTE
Apuração
Igor Ramom Teles Santana
Maria Cecília Souza Santana
Valdson Gustavo Vieira dos Santos
Zion Rodrigues Ramos
Reportagem
Igor Ramom Teles Santana
Maria Cecília Souza Santana
Edição de Texto
Evy Oliver
Edição de Fotos
Igor Ramom Teles Santana
Maria Cecília Souza Santana
Edição de Vídeo
Zion Rodrigues Ramos
Fotografia
Odisséia (Zion Rodrigues)
Audiovisual/ Redes Sociais
Igor Ramom Teles Santana
Maria Cecília Souza Santana
Zion Rodrigues Ramos



























Comentários