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Entre a correnteza e o concreto

  • 20 de jul.
  • 7 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

A Usina Hidrelétrica de Xingó e as transformações às margens do Velho Chico



A força das águas do Rio São Francisco movimenta uma das maiores hidrelétricas do país. Localizada entre Canindé de São Francisco (SE) e Piranhas (AL), a Usina Hidrelétrica de Xingó, um colosso de concreto em meio à paisagem natural, ampliou a oferta de energia no Nordeste e transformou a paisagem e a rotina das comunidades às margens do Velho Chico.


Mais de três décadas após o início de sua operação, em 1994, os efeitos da Hidrelétrica continuam presentes no cotidiano da população. A construção da estrutura de produção de energia submergiu a antiga Canindé, que foi inundada após a ativação da usina. Por outro lado, a obra impulsionou o crescimento econômico na cidade e tornou-se a responsável pelo surgimento de uma nova vocação para a região: o turismo.


O represamento das águas causado pela atividade da Usina acarretou em mudanças ambientais que afetam a vida da população local até os dias atuais, como a diminuição do fluxo de água no rio que afetou a pesca artesanal e alterou a intensidade da correnteza. Essas transformações impactam atividades centrais para a subsistência de uma parte considerável da população das cidades próximas à Usina.


Segundo o pesquisador Wesley Alves dos Santos da Universidade Federal de Sergipe (UFS) em sua Tese de Doutorado em Geografia, A Barragem de Xingó e os Impactos Socioambientais no Baixo São Francisco Sergipano, a construção da Hidrelétrica provocou o deslocamento da população ribeirinha, que precisou deixar a região onde vivia por se tratar de uma área considerada de risco. O estudo destaca que as explosões realizadas durante as obras, realizadas com o intuito de alterar o curso natural do rio, aumentaram os riscos de inundações até a estabilização do projeto.


O Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, percorre cerca de 2.900 quilômetros até desaguar no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas, atravessando cinco estados brasileiros. Conhecido como o "Velho Chico", sempre exerceu papel fundamental no abastecimento de cidades, na agricultura, na pesca artesanal e no transporte de comunidades ribeirinhas.


O potencial hidráulico do Rio São Francisco levou o governo federal a investir na construção da Usina Hidrelétrica de Xingó, iniciada em 1987. O empreendimento transformou a paisagem do sertão e marcou o início de uma nova fase para Canindé de São Francisco e para o Baixo São Francisco. A trajetória da obra pode ser acompanhada na linha do tempo abaixo.


A história da construção que muda para sempre o rumo das águas do Velho Chico.

Linha do tempo: Sofia Almeida e Thiago Antonio


Uma cidade transformada pelas águas


As transformações provocadas pela construção da Usina Hidrelétrica de Xingó não ficaram restritas ao leito do Rio São Francisco. Elas também foram sentidas na relação com o território, na identidade e na memória de quem residia às suas margens.


Segundo a pesquisadora Cléia Tenório, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), em sua defesa de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), a chegada da Usina Hidrelétrica de Xingó ao sertão sergipano provocou alterações que ultrapassaram a estrutura física de Canindé de São Francisco. Conforme a autora, a implantação do projeto também impactou a cultura imaterial da população, fazendo com que os efeitos positivos e negativos da obra contribuíssem para a construção de uma nova identidade entre os moradores antigos e os recém-chegados.


A professora e secretária escolar Luciana Sousa, licenciada em Letras pela Universidade Tiradentes (UNIT) e moradora da região há quase quatro décadas, lembra que Canindé de São Francisco possuía uma estrutura bastante limitada antes da chegada da Hidrelétrica. Segundo ela, o município dependia de Piranhas para serviços essenciais, como atendimento médico e até compras. As mudanças começaram ainda durante a construção da usina. O canteiro de obras passou a empregar trabalhadores da própria região, modificando a realidade econômica de diversas famílias.


O pai de Luciana trabalhou na terraplanagem da obra como operador de máquinas pesadas. De acordo com ela, o emprego representou uma mudança importante para a família em uma época em que a maior parte dos moradores viviam da agricultura. "Para a gente foi quando começou a melhorar. Ele passou a receber salário regularmente, passou a ter alguns direitos. Antes, o trabalho era praticamente só na roça". Com a conclusão da usina, novos mercados, bancos e empresas chegaram ao município. "[A usina] veio trazendo também algumas pessoas de fora, alguns engenheiros vieram pra cá pra trabalhar, acabaram ficando”, afirma Luciana.


Quem também acompanhou essa transformação foi Werden Tavares, filho de um trabalhador da Hidroelétrica e uma das primeiras crianças a morar no acampamento que deu origem ao bairro Xingó, em Piranhas. "A gente foi a segunda ou terceira família a morar lá. Quando chegamos, existiam milhares de casas construídas, mas praticamente todas estavam vazias. Aos poucos fomos conhecendo cada família que chegava para trabalhar na usina", relembra. Segundo Werden, o complexo tinha escolas, moradias e serviços voltados aos trabalhadores.


Desde a entrada em operação da usina, a vazão do São Francisco passou a ser controlada para suprir às necessidades de geração de energia. Dados hidrológicos e boletins técnicos da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), aliados a estudos desenvolvidos por pesquisadores da UFS e da UFAL, indicam que a regularização das vazões modificou a dinâmica do Baixo São Francisco. Na prática, o rio passou a seguir uma vazão controlada, diferente do ritmo natural das cheias.


Indo de acordo com estes estudos que apontam alterações na dinâmica do rio, Luciana diz que uma das alterações mais visíveis está no volume de água. "Quando a gente vai tomar banho no rio, percebe que as pedras aparecem mais. Tem períodos em que o rio fica bem seco. Não é mais aquele volume de água que eu via quando era criança", relata.


As águas do rio São Francisco depois da construção da Usina Hidrelétrica de Xingó.

Vídeo: Olivia Mota


As transformações observadas pelos moradores também são analisadas por pesquisadores que estudam os impactos da hidrelétrica sobre o Baixo São Francisco. Entre o progresso econômico e a alteração ambiental provocada pela barragem, especialistas destacam transformações que ainda influenciam a dinâmica da região.


Para o professor de geografia Jhonatan Rodrigues, licenciado pela UFS e docente das redes municipais de Lagarto e Canindé de São Francisco, a Hidrelétrica representa desenvolvimento, mas ressalta a gravidade dos impactos sobre a dinâmica do rio. "A Canindé de São Francisco que a gente conhece hoje é uma Canindé 2.0, porque, com a construção da barragem, houve o alagamento da área mais baixa e o deslocamento das comunidades para regiões mais altas", explica.


Entre o desenvolvimento e a memória


A formação do reservatório também redefiniu a economia de Canindé de São Francisco. O turismo passou a ocupar um papel de destaque entre as atividades impulsionadas pela usina. Para o professor Jhonatan, esse impacto pode ser observado nos indicadores do município. "Canindé disputa as primeiras posições entre os maiores PIBs de Sergipe, mesmo tendo menos de 50 mil habitantes. Existe toda essa relação envolvendo a usina de Xingó e o desenvolvimento que ela trouxe para o município", afirma.


Segundo Ivo Rodrigues, representante de uma das empresas pioneiras nos passeios turísticos pelos Cânions de Xingó, os Cânions já existiam antes da construção da Usina, mas a formação do lago permitiu a navegação e impulsionou a atividade turística. "Antes da construção já existia, mas não era navegável. Após o enchimento do lago, ele se tornou navegável". Na avaliação dele, a hidrelétrica redefiniu completamente a atividade turística da região. "Há um cenário no turismo antes da hidrelétrica e um cenário depois da hidrelétrica", resume.


Três décadas depois de entrar em operação, Xingó permanece como símbolo das transformações vividas pelo Baixo São Francisco. A Usina impulsionou o desenvolvimento regional e consolidou o turismo, mas também alterou a dinâmica do Velho Chico e a rotina das comunidades ribeirinhas, que passaram a construir uma nova história e identidade, em uma nova Canindé. As marcas ali deixadas seguem vivas na memória de quem testemunhou de perto as consequências da  construção da Usina, tanto às margens, quanto no leito do Rio São Francisco.


Um percurso visual pelas transformações que marcaram o Rio São Francisco

EXPEDIENTE


Apuração

Bruna Alcântara

Olivia Mota

Angélica Correia

Sofia Almeida


Texto

Bruna Alcântara

Olivia Mota


Edição

Olivia Mota

Angélica Correia

Sofia Almeida


Fotografia

Olivia Mota

Sofia Almeida


Infografia (apuração e design)

Bruna Alcântara

Sofia Almeida


Audiovisual/ Redes Sociais:

Bruna Alcântara

Olivia Mota

Angélica Correia

Sofia Almeida


Metodologia do processamento e visualização de dados


Para produzir a linha do tempo da reportagem, foram utilizadas as informações e dados disponíveis na Tese de Doutorado de Wesley Alves dos Santos, entitulada como “A barragem de Xingó e os impactos socioambientais no baixo São Francisco sergipano”, da Universidade Federal de Sergipe. Além da pesquisa “O peixe, o pescador e a barragem de Xingó no Baixo São Francisco em Sergipe e Alagoas no Brasil”, presente na Revista Interdisciplinar de Pesquisa e Inovação da Umiversidade Federal de Sergipe (UFS) e a produção de Regnaldo Gouveia dos Santos nomeada como “Impactos Socioambientais à Margem do Rio São Francisco: Resultado da Falta de Consideração da Área de Influência Real”, da GEOUSP Espaço e Tempo (Online). Por fim, utilizamos imagens de autoria própria e da notícia do G1 Sergipe sobre a evolução da cidade de Canindé. Em conjunto com o editor de visualidades Thiago Rodrigues, desenvolvemos a linha do tempo na plataforma Knight Lab com a ferramenta Timeline JS, utilizada para gerar a linha do tempo de forma rica e interativa. Após a geração, nós mesmos inserimos as imagens da linha. O processo de produção do mapa ocorreu entre os dias 4 a 14 de julho.


SANTOS, Wesley Alves dos. A barragem de Xingó e os impactos socioambientais no baixo São Francisco sergipano. 2019. 250 f. Tese (Doutorado em Geografia) - Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão, SE, 2019. https://ri.ufs.br/jspui/handle/riufs/14369


de Araujo, S. S., Aguiar Netto, A. de O., & Sales, J. M. de J. (2016). O PEIXE, O PESCADOR E A BARRAGEM DE XINGÓ NO BAIXO SÃO FRANCISCO EM SERGIPE E ALAGOAS NO BRASIL. Revista Interdisciplinar De Pesquisa E Inovação, 2(1). https://periodicos.ufs.br/revipi/article/view/4844


SANTOS, Regnaldo Gouveia dos. IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS À MARGEM DO RIO SÃO FRANCISCO: RESULTADO DA FALTA DE CONSIDERAÇÃO DA ÁREA DE INFLUÊNCIA REAL. GEOUSP Espaço e Tempo (Online), São Paulo, Brasil, v. 13, n. 3, p. 81–92, 2009. https://revistas.usp.br/geousp/es/article/view/74143



Software utilizado para visualização de dados

A ferramenta é a Timeline JS, utilizada para construir uma linha do tempo visualmente rica e interativa


Plataforma para criação:

Timeline JS (gratuita)

 
 
 

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ZONA CONTEXTO é uma produção laboratorial EXCLUSIVA, da disciplina Laboratório de Jornalismo Integrado I, do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.

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