Do pomar ao jardim
- 20 de jul.
- 10 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.
Crise da citricultura leva produtores de Boquim a apostarem nas plantas ornamentais
Foto: Guilherme Iohanan
Durante décadas, falar de Boquim era falar de laranja. Hoje, embora a fruta continue sendo um dos principais símbolos do município, as plantas ornamentais embelezam o espaço nas propriedades rurais e ajudam a escrever um novo capítulo da economia local.
O município sergipano nasce a partir de um povoado chamado Lagoa Vermelha na primeira metade do século XIX. Em 16 de outubro de 1926 com o crescimento da população e a localidade elevada, Boquim é aprovado como município pela Lei Estadual nº 959. No século XX, a cidade passou a ser reconhecida como polo da citricultura sergipana, com a introdução das primeiras laranjeiras das mudas de “baía”.
Ainda hoje, Boquim é celebrada como a “Terra da Laranja” devido ao papel da citricultura na formação da identidade da cidade. Como exemplo disso, temos a laranja sendo usada como identificação cultural em estátuas, em praças e no mural de entrada, que tem uma laranja como substituta do ‘o’ no nome do município.

Monumento na Praça da Laranja demonstra a importância da citricultura para Boquim
Mas a economia da cidade não depende totalmente da venda da laranja. Devido às pragas nos laranjais, o município passou a produzir plantas ornamentais. Estas são plantas cultivadas para decoração, valorizadas pela beleza das flores, cores, formas ou folhas, sendo utilizadas em jardins, paisagismo e ambientes internos. Boquim se fortaleceu neste mercado com sua comercialização para Sergipe e outros estados, como Pernambuco, Bahia e Minas Gerais.
Plantas ornamentais encantam os olhos com sua beleza
Os agricultores de Boquim precisaram buscar outras culturas, pois os custos de produção da laranja aumentaram significativamente e o preço de comercialização do produto não cobria esses custos, tornando o cultivo menos atrativo. Além disso, os produtores corriam o risco de sofrerem com as pragas, principalmente a mosca negra, em seus pomares. A mosca negra afeta as folhas e impede a planta de fazer fotossíntese para se nutrir, afetando a produção de frutos. As plantas ornamentais são mais resistentes a essa praga, o que torna sua produção mais lucrativa.
Como exemplo dessas transformações, avistamos uma pequena construção cinza cercada de plantas ornamentais diversas, que chamava a atenção de quem passava pela Rodovia Cleonâncio Fonseca, que liga os municípios de Boquim e Estância. Trata-se do comércio “Horto Barreto e Lima” de Everaldo Barreto, de 48 anos. Everaldo era catador de laranja até que decidiu, há 12 anos, migrar para as plantas ornamentais.
“Eu tomei a iniciativa de trabalhar com as plantas porque, na época, a citricultura aqui em Boquim sofreu por motivo de pragas. Os pomares de laranja foram se deteriorando. Inclusive, eu trabalhava colhendo laranja. Devido a isso, a gente migrou para a planta. Foi por necessidade”, relatou Everaldo.
A crise da Laranja

Flores e folhas de laranjeiras são as principais afetadas pelos excrementos das moscas negras
A crise que acometeu o sistema de produção citrícola do município de Boquim se deu, em parte, pela presença de uma praga conhecida como mosca negra, muito comum em áreas tropicais e subtropicais. As moscas fazem das espécies citrus suas hospedeiras primárias, podendo infestar mais de 300 tipos de plantação. Essa praga também representa risco às plantas ornamentais, mas em menor grau.
Boquim, antes uma referência no mercado produtor de laranja do estado, ocupava a 4° posição no ranking de maiores produtores de laranja de Sergipe. Hoje, ocupa a 9° posição desde de 2019, segundo dados do IBGE. Apesar da diminuição do cultivo na cidade, estudo feito pelo Banco do Nordeste (BNB), Sergipe e Bahia concentram mais de 80% da área cultivada de citros da Região.
A queda da produção comprometeu a posição de Boquim como polo citrícola em Sergipe
Gráfico: Guilherme Iohanan
Entre outros fatores que contribuíram com a crise estão as dificuldades enfrentadas pelo pequeno e médio produtor e a superprodução em 2025. A demanda da empresa local Sumo, principal compradora da produção local, não cobriu toda a oferta de laranja, o que diminuiu os preços da fruta e causou prejuízo para os citricultores.
De acordo com o Boletim Mensal Agropecuário da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Sergipe (Faese), em 2025 o preço da tonelada da laranja caiu 29% de outubro para novembro. O acúmulo da produção no mercado interno fez com que houvesse descarte indevido dos frutos. Consequentemente, os custos de produção aumentaram e o lucro das safras não foi o suficiente para cobrir os gastos das últimas levas. Por conta disso, foi necessário que os produtores se voltassem para o plantio de outras culturas de ciclo curto como milho, amendoim e feijão.
Segundo o levantamento do BNB, o plantio de diferentes culturas ou os “cultivos consorciados”, permite uma maior biodiversidade, o que favorece um maior equilíbrio ecológico, assim reduzindo os riscos de pragas e doenças e promovendo máximo proveito do uso da terra, dos insumos, do maquinário e da mão de obra empregada.
O problema é vender e a solução, a união
A citricultura sergipana é majoritariamente composta por agricultores familiares. Por sua vez, essa estrutura produtiva requer políticas específicas de apoio à valorização da produção agrícola familiar, principalmente pela afetação causada pela queda de preços da laranja.
Para o pequeno produtor, tornou-se inviável apenas cultivar laranja. O preço que ele recebe com a comercialização da fruta é inferior às despesas da plantação, colheita, transporte e acondicionamento, inviabilizando o lucro deste produtor familiar local. O pequeno agricultor sai em desvantagem em relação ao grande produtor capaz de obter economias de escala, ou seja, vender a saca de laranja a um preço menor devido a maior produtividade das suas terras.
Responsável por orientar esses trabalhadores, Jadson Costa Santos, Secretário Municipal de Agricultura, Comércio, Indústria e Meio Ambiente, juntou forças com os Governos Federal e Estadual para incentivá-los a diversificar a produção. Devido a isso, meios alternativos foram apresentados para a superação da monocultura no município. O secretário explica também a vantagem de manter instituições parceiras para o cumprimento pleno do auxílio ao trabalhador.
A busca por profissionais dispostos a orientar e assessorar os produtores, levou a secretaria a estabelecer uma parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural ,Senar, que dispõe de técnicos que acompanham esses trabalhadores nas suas diversas atividades. E também com a Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe, EMDAGRO, que através do acesso à informação por meio de cursos e palestras, assistem o agricultor, além de regularizar a documentação de todos esses produtores. “A gente tem esse papel de trazer essa informação, organizar eles e incentivar suas produções”, complementou Jadson.
Atual ciclo da citricultura: da estufa, ao pomar, a mão do empreendedor
Os pequenos citricultores também buscam soluções para a dificuldade em escoar a produção de laranja. Abelardo Araújo Reis, ex-presidente do Sindicato Dos Trabalhadores Rurais Agricultores E Agricultoras Familiares De Boquim, é mais um dos pequenos produtores que sofreu com a queda dos preços nesse último ano. Reis acredita em uma saída coletiva como a fundação de uma cooperativa, pois trata-se de “um grupo de agricultores organizados, onde todos vão ter a mesma margem de lucro. O que tiver de lucro é de todos, o que tiver de prejuízo é de todos”, explica.
O Sindicato trabalha junto à Secretaria para que essa associação surja e os produtores obtenham uma maior estabilidade no principal produto da terra, a laranja, sem que existam prejuízos na hora de cultivar e, sobretudo, comercializar.
O crescente mercado das plantas ornamentais
Ao andar pelas ruas do Povoado Miguel dos Anjos, é possível encontrar várias casas floridas. A estrada de terra, marrom e sem vida, aos poucos fica colorida em meio às variadas espécies de mudas. O pequeno povoado se encontra na entrada de Boquim e divide espaço com o Povoado Três Irmãos. Ambos investem crescentemente na produção de plantas ornamentais e são exemplos da adaptação e empreendedorismo dos agricultores boquinenses.
Segundo dados publicados em 2024 pela Emdagro, a atividade cresceu nos últimos 15 anos e as unidades produtivas estão presentes em 9 comunidades do município de Boquim.
A maior parte dessas unidades se concentra nos povoados Miguel dos Anjos com 45% da produção e Três Irmãos com 35%. As outras comunidades produtoras, que ainda apresentam uma porcentagem menor, são respectivamente Olhos D'água, Garangau, Taboca, Varjão, Cabeça Dantas, Pastor e Punga.
A produção das plantas foi uma das saídas encontradas para a crescente crise citrícola na cidade e resultou em um novo mercado agrícola que se mostra cada vez mais promissor. Luiz Carlos Santos, morador do Três Irmãos e presidente da Associação de Produtores de Plantas Ornamentais, foi uma das pessoas que se reinventaram. Ex-catador de laranjas, está no ramo há 6 anos. “Eu era catador de laranja e vi nas plantas ornamentais uma saída mais viável”, disse.
Luiz relatou que esse novo trabalho foi muito aceito nos povoados e que hoje eles vendem para várias cidades de todo o nordeste. Atualmente, os estados que mais compram as plantas são Bahia e Pernambuco, principalmente por causa da BR 101 que os liga à Sergipe.
Principais destinos estaduais e municipais da comercialização das plantas de Boquim.
Gráfico: Ludmila Catarina
Para a produção das plantas não é necessário muito espaço. Diferente das laranjas, as plantas conseguem se desenvolver em terrenos menores dentro de bolsas ou vasos com sementes. Por isso, a maior parte dos produtores mantém o cultivo no próprio terreno e, muitos deles, conseguem comprar terrenos maiores com os lucros das próprias plantas.
Luiz Carlos relatou que na associação, que conta com 15 pessoas, os agricultores têm o costume de comprar um dos outros para estocar mercadoria. Dessa forma, um produtor que não possuí determinada planta em seu estoque resolve o problema comprando de outro produtor local. “Quando a gente compra um do outro a gente se fortalece dentro do mercado”, relatou o agricultor.
Segundo o relatório feito pelo Banco do Nordeste, em 2019, Boquim já apresentava evolução na atividade da floricultura com a atuação de 127 estabelecimentos, sendo 81,1% produzindo mudas e 8,7% produzindo grama.
A cultura das plantas começou há pouco mais de 20 anos graças a José Edson, conhecido como Ninho das plantas e ex-presidente da Associação de Produtores de Plantas Ornamentais. Ninho e sua família influenciaram outras pessoas da comunidade a se interessarem em entrar no ramo de plantas. “Eu fui o pioneiro, o maior incentivador dessa cultura”, afirmou o produtor.
Afetado pela crise e observando a fragilidade da citricultura, Ninho trouxe para a cidade conhecimentos sobre os cuidados necessários para o cultivo das plantas ornamentais. “A concentração dos produtores nos Três Irmãos começou por mim, quando plantei os primeiros pés de plantas ornamentais na casa da minha mãe e dali nós começamos a desenvolver e expandir para outros lugares”, afirmou Ninho, que aprendeu o ofício ao trabalhar em Aracaju com produtores experientes.
Elton Cruz, assistente técnico do Senar, acompanha de perto os impactos do cultivo da planta na economia da cidade e afirmou que as plantas conseguem sustentar mais de 100 produtores nos povoados. “Hoje, Boquim não é mais a terra da laranja, mas sim a terra das plantas ornamentais. O que sustenta hoje 70% da população de lá são as plantas. Só da espécie minixoria eles conseguem vender de 800 mil à 1 milhão por ano”. A minixoria é uma planta de pequeno porte e com flores coloridas, podendo ser encontrada principalmente na cor vermelha, muito comum no ornamento de jardins.
A emergente relevância de Boquim no ramo da floricultura e sua inovação em seguir por um caminho muito diferente da tradicional laranja, agora precisa atender a produtores que estão potencializando sua produção e gerando mais empregos e, com isso, precisando de cada vez mais incentivo.
Antes, muitos moradores de Boquim precisavam sair de suas casas para colher laranjas em pomares de outros povoados em busca de sustento. Hoje, muitos se tornaram empreendedores cultivando flores em seus próprios quintais, transformando a produção de plantas ornamentais em sua fonte de renda e desenvolvimento para o município.
EXPEDIENTE
Pesquisa e Reportagem
Alice Prata
Guilherme Iohanan
Joice Paiva
Ludmila Catarina
Imagens/Fotografias
Guilherme Iohanan
Joice Paiva
Edição de Fotos
Guilherme Iohanan
Infografia
Guilherme Iohanan
Ludmila Catarina
Captação de Vídeos
Alice Prata
Joice Paiva
Edição de Vídeos
Joice Paiva
Ludmila Catarina
Audiovisual e Redes Sociais
Alice Prata
Joice Paiva
Ludmila Catarina
Metodologia do processamento e Visualização de dados
TÓPICO:
A crise da Laranja
Para a construção da visualização de dados, foi utilizado como principal fonte o Censo das Cidades realizado de 2016 à 2022 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Com o intuito de fundamentar a análise, realizou-se um levantamento minucioso dos indicadores históricos da citricultura local presentes nos documentos selecionados. Esse processo concentrou-se no mapeamento do volume físico da colheita ao longo dos anos, permitindo identificar os marcos temporais da retração produtiva e compreender a dinâmica de transição agrícola no município.
A análise dos dados históricos revela uma expressiva e gradual retração na quantidade de laranja colhida em Boquim ao longo das últimas duas décadas. De acordo com a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, a produção do município despencou de patamares próximos a 190 mil toneladas em 2006 para cerca de 85 mil toneladas em 2016, mantendo a tendência de queda até atingir a marca de aproximadamente 46 mil toneladas em 2022. Essa trajetória de declínio e estagnação acentuou-se a partir de 2010 e, conforme indicado no diagnóstico, foi severamente agravada após 2016 devido a fatores climáticos, como a seca, e à incidência de pragas na região.
O processo de apuração permitiu concluir que a diminuição da área destinada à plantação de laranja permitiu que houvesse uma maior diversificação, e consequente aumento, no cultivo de outras culturas em Boquim. Dessa forma, os dados foram utilizados para contextualizar a expansão da atividade econômica no município.
Para montar o gráfico e possibilitar o processamento e a visualização das informações, foi escolhida a plataforma Infogram, que permite a criação de gráficos interativos. Foi escolhido para isso o gráfico de linhas por permite ao leitor entender a mudança na queda produtiva da laranja de acordo com a passagem dos anos.
TÓPICO
O crescente mercado das plantas ornamentais
Para a construção da visualização de dados, foi utilizado como principal fonte o Diagnóstico da Produção de Plantas Ornamentais e Grama no município de Boquim, produzido pela Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (EMDAGRO) e pela Secretaria de Estado da Agricultura, Desenvolvimento Agrário e da Pesca (SEAGRI).
Para compreender a situação, foi feita uma leitura de todo o material do Diagnóstico, observando o atual cenário da produção de plantas ornamentais no município para identificar os dados relacionados à comercialização e à distribuição da produção.
A análise dos dados foi sobre os municípios e estados que se destacam como principais destinos das plantas ornamentais produzidas em Boquim. De acordo com os dados do diagnóstico, Aracaju aparece como o principal município importador, com 68,5%, seguido por Lagarto (39,3%), Estância (14,6%) e Itabaiana (14,6%). Em relação à comercialização para outros estados, a Bahia se destaca com 98,7%, seguida por Pernambuco (64,9%), Minas Gerais (39,0%) e Alagoas (26,0%).
Unindo-se à análise documental, foram realizadas entrevistas com fontes relacionadas à produção e à comercialização das plantas. As falas de agricultores e especialistas foram observadas em conjunto com os dados do diagnóstico, buscando identificar relações entre as informações estatísticas e os relatos sobre o crescimento da atividade.
O trabalho de apuração concluiu que a ampliação da produção florista gera renda para a população de Boquim. Dessa forma, os dados foram utilizados para contextualizar a expansão da atividade econômica no município.
Para montar o gráfico e possibilitar o processamento e a visualização das informações, foi escolhida a plataforma Infogram, que permite a criação de gráficos interativos. Foi escolhido para isso o gráfico de colunas por sua capacidade de facilitar a comparação visual entre os diferentes municípios e estados, permitindo que o leitor compreenda rapidamente as diferenças percentuais entre os destinos da produção.

























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