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Cultura local ou tradição inventada?

  • 20 de jul.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 21 de jul.

Festival da Mandioca em Lagarto, apesar de sua breve história, se torna patrimônio cultural e investe em altos cachês



Lagarto está a 79 quilômetros de Aracaju, porém também é capital. O município, famoso por suas vaquejadas, tem orgulho de ser conhecido como a capital do interior de Sergipe. E este título não foi recebido por acaso. O comércio se espalha pelas ruas da cidade e inúmeras praças e escolas tomam conta da paisagem do lugar, cruzado tanto por pequenas ruas quanto por gigantescas avenidas.


Além de ser considerada capital do interior, é conhecida também como o palco do Festival da Mandioca, que estava marcado para acontecer na Praça do Tanque, a 500 metros do centro da cidade. Lá estava sendo montada uma mega estrutura para receber grandes shows da edição de 2026.


Pelo nome que leva o festival, é natural imaginar que a mandioca seja a grande protagonista da celebração, mas basta caminhar pelos arredores da praça para perceber outra realidade. As barracas dedicadas ao produto que dá nome ao festival não estão no espaço principal do evento. Elas podem ser encontradas longe, isoladas, em pequenas ruas ou na sombra de uma da árvore na beira da avenida Contorno, a alguns quilômetros da praça do Festival.


Esse contraste revela uma mudança na festa. Se nas primeiras edições a mandioca ocupava posição de destaque, hoje ela aparece de forma discreta. A cultura que inspirou o festival perdeu relevância na  programação, enquanto os grandes shows de artistas de reconhecimento nacional e donos de cachês vultosos passaram a assumir o protagonismo.


O Festival 


O Festival da Mandioca chega à sua décima terceira edição em 2026, mantendo-se como uma das principais celebrações culturais de Lagarto, município do centro-sul sergipano. O evento surgiu em 2009, por iniciativa do então prefeito Valmir Monteiro, com objetivo de valorizar a cultura local e fortalecer a economia do município. 


Ao longo dos anos, entretanto, o festival não ocorreu de forma contínua. Após as primeiras quatro edições consecutivas, a festa deixou de ser realizada e só retornou em 2017. Em 2020 e 2021, foi novamente suspensa em razão da pandemia da Covid-19, voltando a ser realizado novamente em 2022.


Em 2019 , o Festival da Mandioca foi declarado pela Assembleia Legislativa de Sergipe (Alese) , através da lei ordinária Nº 8.693, como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, por propositura do deputado Ibrain de Valmir (PV), filho do criador do festival.


Apesar de dar nome à festa, a mandioca perdeu espaço dentro da programação do evento ao longo dos anos. Segundo o historiador e professor da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Claudefranklin Monteiro, as primeiras edições buscavam aproximar a celebração da realidade dos produtores rurais. Com a exposição de produtos derivados da mandioca e convênios com a Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, para oferecer capacitação aos agricultores.


“Me lembro que nas primeiras edições, tinha lá no no tanque grande exposição de produtos derivados da mandioca. Então, no início sim, no início houve uma valorização do produto, mas ao passo que o festival foi ganhando outras edições, o produto foi ficando em segundo plano”, relata Claudefranklin.


A mandioca


Plantação de mandioca do produtor Jamisson Pereira no Povoado Estancinha, em Lagarto


A mandioca está ligada diretamente à história de Lagarto desde o início do povoamento da região que hoje corresponde ao município. Na época da fundação, por estar mais distante do litoral, as principais atividades econômicas desenvolvidas na região foram a pecuária e a agricultura de subsistência. 


O agricultor Jamisson Pereira relata que trabalha com essa cultura há aproximadamente 33 anos e afirma que a atividade está diretamente ligada à subsistência. “É através da mandioca que eu arrumo o sustento da minha família”. Dessa forma, a cultura da mandioca mantém suas origens e sua importância histórica e econômica no município.


Nesse contexto, a escolha da mandioca como símbolo do festival não ocorreu por acaso. Lagarto se destaca como o principal produtor da raiz em Sergipe. Dados da Emdagro apontam que em 2023, o município produziu cerca de 63 mil toneladas de mandioca, volume que o colocou na liderança estadual, como uma produção aproximadamente sete vezes maior do que o segundo colocado.


A agricultura de subsistência foi a que mais se desenvolveu na região, onde se destaca a mandioca e seus derivados com farinha, beiju, pé de moleque, entre outros. “Entre os derivados da mandioca, uma que se notabilizou foi a produção da maniçoba”, conta Claudefranklin Monteiro.


A maniçoba tem origem no norte do Brasil, mais precisamente na região do estado do Pará, criada pelos povos originários. Segundo Claudefranklin Monteiro, “a maniçoba chega a Lagarto em razão do tráfico interprovincial de escravizados africanos”. Trata-se de um caldo preparado da folha da mandioca. Para eliminar sua toxina, as folhas precisam ser cozidas durante sete dias, tornando o alimento próprio para o consumo.


Tradições abarcadas no festival


Casamento Caipira e a Silibrina, tradições culturais lagartenses


O município de Lagarto possui manifestações da cultura tradicional que remonta às tradições culturais ancestrais, cuja origem vem de muito antes de se pensar na criação do festival. Como é o exemplo dos concursos de quadrilhas, Alvorada da Silibrina, Pega do Mastro e os Casamentos Caipiras dos povoados. Ao longo do tempo essas tradições passaram a compor a programação do festival.


A Pega do Mastro é uma tradição popular com mais de cem anos de história, na qual os moradores conduzem um mastro, que consiste em uma árvore cortada com machados e transportada pelas ruas da cidade antes de ser fincada em um ponto específico. Esse ritual marca o início dos festejos juninos no município.


Outra manifestação marcante do município é a Alvorada da Silibrina com um cortejo pelas ruas da cidade, nas primeiras horas do dia. Ao som de bandas de pífanos e trios de forró, moradores e visitantes acompanham a caminhada em um clima de celebração. Para celebrar a chegada de um novo dia com os primeiros raios de sol, a solta de fogos de artifícios e guerra de buscapé também fazem parte do festejo.


Com mais de um século de tradição, a Silibrina é uma das manifestações culturais mais antigas de Lagarto. A celebração surgiu no fim do século XIX, a partir da iniciativa de fiéis católicos, e tradicionalmente ocorre na madrugada de 31 de maio, marcando a chegada do mês junino. É organizada por moradores da Rua de Riachão, que mantém a tradição que atravessa gerações.


Segundo o professor de Geografia e estudioso da história e da cultura de Lagarto, Emerson Amorim, "o intuito da Silibrina era comemorar a entrada do mês de junho por ser o mês dos santos católicos: Santo Antônio, São João e São Pedro".


Já nos povoados do município, ocorrem os Casamentos Caipiras em quatro localidades: Brejo, Brasília, Jenipapo e Colônia Treze, onde acontece o Casamento do Matuto. Nesses eventos, as comunidades se reúnem para realizar desfiles com carroças e tratores enfeitados com folhas e adereços coloridos, além da encenação de um casamento tradicional do interior nordestino.


Os Casamentos Caipiras organizados pelo poder público tiveram início em 1990, no povoado Brejo. A tradição está diretamente ligada ao modo de vida das comunidades rurais e busca preservar costumes e memórias do interior do município.


De acordo com Emerson Amorim, a origem simbólica dessa manifestação remete ao final do século XX, quando muitos moradores dos povoados precisavam se deslocar até a sede do município para participar das celebrações de casamento religioso. Grande parte das estradas ainda não era pavimentada, então o trajeto era feito em carroças e os viajantes chegavam cobertos de poeira ou lama, cenário que passou a ser retratado de forma bem-humorada nas encenações dos casamentos caipiras que já eram realizados nas escolas nos anos 70 e 80. Essa tradição preserva a memória do cotidiano das comunidades rurais e reforça a identidade cultural do município.


Cachês astronômicos e dívidas


Secretário de Turismo e estrutura montada para receber as grandes atrações da edição 2026


A contratação de artistas de projeção nacional também passou a ocupar grande destaque nas discussões sobre o Festival da Mandioca. Conforme dados do portal da transparência da Prefeitura de Lagarto, os cachês previstos para edição de 2026 ultrapassaram a mais de R$ 8 milhões de reais. Entre as principais atrações estavam Wesley Safadão, contratado por R$ 1,5 milhão, Bruno & Marrone e Simone Mendes, com cachês de R$ 950 mil cada, além de outros artistas com cachês igualmente elevados.


Esses investimentos colocam em xeque o papel do festival. Por outro lado, a administração municipal defende que a contratação de grandes atrações nacionais impulsiona o turismo, fortalece o comércio e a economia local. Como relata o secretário de turismo do município, Alexsandro Carvalho, há uma estimativa de que passaram pela cidade mais de 80 mil pessoas por dia durante a edição de 2025 do festival, o que fez a rede de hotelaria atuar com sua capacidade máxima. Esse público teria se concentrado, em sua maioria, nos dias das atrações nacionais.


A discussão ganhou novos contornos após o Tribunal de Contas dos Estado de Sergipe (TCE/SE) determinar, em 11 de junho de 2026, a suspensão cautelar de despesas com shows acima de R$ 400 mil, de forma unânime, alegando a necessidade de avaliar a situação econômica do município. O caso chegou ao TCE/SE através de uma denúncia à ouvidoria da casa. Além disso, a prefeitura enfrenta processo judicial por conta do não pagamento referente à estrutura da edição de 2025. A Prefeitura tentou recorrer da decisão para realização do evento com as grandes atrações, mas não conseguiu êxito e realizou o evento com artistas locais.


Em visita à cidade na semana anterior à data prevista para ocorrer o festival, foi possível observar a montagem das estruturas destinadas ao evento como palco, camarotes e espaços destinados aos vendedores ambulantes. Como parte da reportagem previa a cobertura do festival, esperava-se a realização da programação inicialmente anunciada. No entanto, com o cancelamento dos grandes shows, a prefeitura divulgou a nova programação composta por shows de artistas locais apenas no dia do evento, contribuindo ainda mais para o esvaziamento da festividade.

EXPEDIENTE


Apuração

Pedro Pereira, Marcelo Guimarães e Jonata Gois


Reportagem

Jonata Gois e Marcelo Guimarães


Edição de texto

Evy Oliver


Edição de fotos e vídeos

Pedro Pereira


Fotografias

Marcelo Guimarães e Pedro Pereira


Audiovisual / Redes Sociais

Jonata Gois, Marcelo Guimarães e Pedro Pereira


Infográfico  

Pedro Pereira para o webstory ‘O protagonismo da mandioca’ através da plataforma: https://www.figma.com/pt-br/


Infografia

EMPRESA DE DESENVOLVIMENTO AGROPECUÁRIO DE SERGIPE (EMDAGRO). Análise conjuntural da mandioca. Aracaju: EMDAGRO, 2025. Disponível em: https://emdagro.se.gov.br/wp-content/uploads/2025/07/MANDIOCA-ANALISE-CONJUNTURAL.pdf. Acesso em: 17 jul. 2026. (emdagro.se.gov.br)



 
 
 

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