ARACAJU É DESTINO EM CONSTRUÇÃO
- 20 de jul.
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Capital sergipana concentra investimentos e diversifica a atividade turística, mas consolidar esse destino no turismo ainda requer planejamento e continuidade

Pequena em extensão, Aracaju construiu uma identidade própria entre as capitais nordestinas. Suas praias urbanas, seu ritmo desacelerado, a gastronomia, os patrimônios históricos e a hospitalidade tornaram a cidade porta de entrada do turismo em Sergipe. Em 2024, passou a estar entre os 20 destinos nacionais mais procurados, de acordo com levantamento da Decolar divulgado pelo Ministério do Turismo. Os índices mostram que Aracaju vem ampliando sua presença no mercado turístico mas ainda permanece atrás de destinos nordestinos historicamente consolidados, como Maceió, Salvador, Natal, Fortaleza e João Pessoa.
A identidade construída é resultado de uma série de planos e decisões tomadas ao longo de décadas que moldaram a infraestrutura da cidade e definiram os rumos de desenvolvimento do turismo na capital. De acordo com um estudo publicado na Revista Turismo Contemporâneo, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), pelos pesquisadores Joab Almeida Silva e Cristiane Alcântara de Jesus Santos, até o início da década de 1990, Sergipe não possuía um planejamento próprio para o turismo. As ações do setor eram orientadas principalmente pelas diretrizes da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) e por iniciativas pontuais.
Esse cenário começou a mudar com a implantação do Programa de Desenvolvimento do Turismo no Nordeste (Prodetur/NE), criado pelo Governo Federal no ano de 1994, na gestão de Itamar Franco, para financiar obras de infraestrutura e estruturar a atividade turística na região. Em Aracaju, o programa financiou intervenções que mudaram o cenário urbano, como a ampliação do Aeroporto Santa Maria, melhorias no abastecimento de água dos bairros Atalaia e Mosqueiro, a recuperação dos mercados Antônio Franco e Thales Ferraz e ações de revitalização do Centro Histórico.
Sergipe elaborou seu primeiro Plano Estratégico Estadual de Turismo apenas em 2001, documento que passou a orientar as políticas públicas voltadas para o setor. O estudo realizado por Joab Silva e Cristiane de Jesus Santos explica que nos anos seguintes o estado criou novos instrumentos para organizar o turismo regional, mas parte das iniciativas perdeu continuidade. Para o professor e pesquisador de Turismo da UFS, Dênio Azevedo, um dos principais desafios ao desenvolvimento da atividade é a interrupção de políticas públicas a cada mudança de gestão. "As mudanças de governo normalmente são marcadas por severas descontinuidades. Projetos que vinham dando certo acabam sendo interrompidos", afirma.
O economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio), Márcio Rocha, atribui esse cenário à forma como o turismo é conduzido no estado. “O turismo nunca foi visto como uma política desenvolvimentista. O turismo é feito por projetos de governo”, explica. Na avaliação do economista, isso significa que as políticas de turismo costumam acompanhar o ciclo de cada gestão. Com a troca de governos e das equipes responsáveis, os projetos acabam sendo interrompidos, dificultando a construção de uma estratégia permanente para o desenvolvimento do setor.
Essa reflexão evidencia como a discussão sobre o turismo na capital vai além de indicadores econômicos, pois consolidar um destino turístico também depende das escolhas feitas pelo poder público, como as de quais segmentos fortalecer e qual identidade local pretende-se construir.
APOSTA EM EVENTOS
Se as escolhas feitas pelo poder público ajudam a explicar os rumos do turismo, é necessário entender o cenário atual e ouvir quem executa as políticas que consolidam a cidade como destino turístico. Os dados divulgados pelo Sistema Fecomércio e pela Secretaria Municipal do Turismo mostram que a atividade turística concentrou cerca de R$567 milhões da movimentação econômica do turismo, respondendo por cerca de 76% da atividade em Sergipe. Nossa equipe entrou em contato com as secretarias de Turismo de Sergipe e de Aracaju para compreender quais estratégias vêm sendo adotadas para fortalecer esse cenário.
Na Secretaria Municipal do Turismo, o secretário Fábio Andrade designou a coordenadora de Planejamento Turístico, Luara Lázaro, para conceder a entrevista em nome da pasta. Segundo ela, o turismo de eventos de médio e grande porte tem sido uma das principais estratégias adotadas pela gestão para manter o fluxo de visitantes ao longo do ano. “A secretaria tem investido desde o início, principalmente no turismo de eventos”, comenta. “A gente vai para fora da cidade e do estado apresentar Aracaju para outros mercados e impulsionar as pessoas a virem para cá”. afirma. Entre as iniciativas apresentadas pelo município estão o Forró Caju, o Pré-Caju e a Maratona de Aracaju.
No âmbito estadual, essa estratégia também passou a fazer parte da política de turismo. A secretária de Estado do Turismo, Daniela Mesquita, explica que, desde 2023, Sergipe conta com um calendário oficial de eventos realizados ao longo do ano, como o Verão Sergipe, o Arraiá do Povo e as Vilas da Páscoa e do Natal Iluminado. “Esse planejamento permite que operadoras e agências de viagens montem e comercializem pacotes com antecedência, enquanto os turistas conseguem se programar melhor para visitar Sergipe”, comenta.
A aposta no turismo de eventos pelas atuais gestões reúnem as programações culturais, de entretenimento, negócios e competições esportivas. Esse último segmento vêm ganhando espaço, e na avaliação de Márcio Rocha, as corridas de rua contribuíram para ampliar a atividade turística na capital. “Eu considero pontos importantes o Ironman 70.3, a corrida da Tracksfield que chegaram com força dentro do mercado”, assente o economista. “A própria corrida da Cidade de Aracaju, que é histórica, é um evento que traz muita gente de fora para disputar a competição aqui em Sergipe”, afirma.
Werllen Moura, é guia de turismo e atua há 17 anos na profissão. Em entrevista, ele fala sobre a realização da Copa Brasil de Kart, sediada em Aracaju em 2025, como exemplo de prática esportiva que movimenta o turismo da capital. O torneio, considerado o segundo maior do kartismo brasileiro atraiu visitantes de diferentes estados. “São pessoas que se hospedam, compram no restaurante, compram artesanato e fazem passeios”, afirma. Para o guia, esse perfil de visitante tem contribuído para fortalecer o turismo esportivo na capital.
Aracaju busca fortalecer sua posição como destino turístico brasileiro.
NOVOS CAMINHOS
Embora o segmento de eventos culturais ou esportivos concentrem boa parte das estratégias atuais, eles representam apenas possibilidades de desenvolvimento da atividade turística. A diversidade de atrativos da capital abre espaço para outros caminhos, que começam a ganhar força e ampliam o debate sobre os rumos do turismo em Aracaju.
O Endoturismo, por exemplo, se caracteriza como a prática de conhecer a própria cidade ou estado, movimentando a economia e a cultura criativa interna. A Coordenadora de Planejamento Turístico da Setur Aracaju, Luara Lázaro, explica que esse segmento de turismo amplia o sentimento de pertencimento e valoriza os atrativos da própria capital. “A gente entende que é importante possibilitar que o morador descubra, a cidade que vive. Porque muitas vezes as pessoas não têm um conhecimento tão claro do que é que Aracaju tem”, comenta.
A religiosidade também desponta como potencial atrativo para visitantes. De acordo com o Ministério do Turismo, o turismo religioso configura as atividades motivadas pela busca espiritual e prática da fé em espaços e eventos religiosos. Em Sergipe, não é um segmento novo. Nos municípios de Divina Pastora, São Cristóvão e Nossa Senhora Aparecida, as peregrinações são conhecidas por movimentar fiéis de todo o estado. Segundo a reitoria do Santuário de Nossa Senhora Divina Pastora, as festividades contam com cerca de 200 mil fiéis em uma caminhada de 10 quilômetros, tornando -se a maior manifestação religiosa do estado.
Em Aracaju, iniciativas recentes também reforçam o turismo religioso. Em março de 2026, foi inaugurada a rota Santa Dulce dos Pobres, que liga Aracaju à São Cristóvão e conduz fiéis à Igreja do Carmo, no centro histórico da Cidade Mãe. Em junho do mesmo ano, a estátua do Santo Antônio foi instalada na zona norte de Aracaju, no Bairro Santo Antônio, com o intuito de movimentar a atividade religiosa na capital.
Além disso, os feriados e celebrações religiosas atraem visitantes, como no dia 8 de dezembro, as celebrações de Nossa Senhora da Conceição, no catolicismo, e de Oxum, nas religiões de matriz africana, reúnem milhares de fiéis em programações como o novenário católico e a tradicional lavagem das escadarias da Catedral Metropolitana.
A gastronomia também integra as experiências do endoturismo ao valorizar a culinária local. Em Aracaju, o Festival do Caranguejo reúne turistas e sergipanos em torno de um dos principais símbolos gastronômicos da capital. Segundo a Secretaria Municipal do Turismo, 87% do público da edição de 2025 era formado por moradores do estado que nunca haviam participado do evento. Para Dênio Azevedo, Sergipe vem construindo sua identidade gastronômica por meio de símbolos identitários.“ Às vezes, não é nem a forma de fazer, mas a forma como se come ou a importância que se dá àquele prato”, comenta o professor.
Mirante do Cristo Redentor, localizado na Colina de São Gonçalo, em São Cristóvão
GESTÕES (DES)CONTINUADAS
Se a diversificação dos atrativos amplia o potencial turístico de Aracaju, medir os impactos desse crescimento é um desafio igualmente importante. Em Aracaju, o setor de serviços representa cerca de 66% do Produto Interno Bruto (PIB) do município e o turismo gerou aproximadamente 18 mil empregos formais em 2025, segundo a Secretaria Municipal do Turismo. Para o economista Márcio Rocha, esses números evidenciam a importância do setor turístico para a economia. “O dinheiro do turismo é externo, é um dinheiro completamente novo na economia. É um dinheiro que vem de fora para dentro, não é receita própria da gente”, afirma.
Em soma, Dênio Azevedo explica a importância do investimento em estruturas capazes de promover o turismo quando pensados estrategicamente através de políticas públicas. “Os eventos culturais, artísticos, científicos, os eventos empresariais, são fundamentais para a manutenção de variados equipamentos turísticos e o desenvolvimento de serviços em qualquer destino”, cita. Surge daí a importância de uma prática constante de valorização de ações efetivas operadas pela máquina pública.
Dênio ainda ressalta que para além da criação de novos atrativos o desafio está em garantir a permanência das iniciativas ao longo do tempo. Para ele, ações de promoção turística precisam ser estruturadas como políticas públicas contínuas, capazes de atravessar diferentes gestões e consolidar as experiências que foram esquecidas, entre os exemplos citados em entrevista, está a retomada de projetos que perderam espaço ao longo dos anos, como o trem turístico. “As motivações são as mais variadas, mas a descontinuidade é um grande problema”, conclui.
EXPEDIENTE
Apuração
Anne Beatriz, Júnior Fontes, Ana Clara Silva e Izia Natalie
Reportagem
Izia Natalie e Anne Beatriz
Fotografia
Anne Beatriz, Junior Fontes, Thaila Ramos, Alice Prado e Ana Clara Silva
Edição Audiovisual / Redes Sociais
Ana Clara Silva















































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