Em Sergipe, número de vítimas fatais em acidente com motos é três vezes maior do que com automóveis

Vidas e famílias destruídas. Rotinas alteradas. Sonhos suspensos. Esses são alguns exemplos dos danos em acidentes de moto. Uma tragédia cotidiana que se traduz nas estatísticas e nas histórias das vítimas. Em Sergipe, morrem três vezes mais motociclistas do que motoristas em acidentes de trânsito. No ano passado, o Hospital de Urgência de Sergipe (HUSE) atendeu sete vezes mais acidentados por moto do que por automóveis.
As estatísticas, com seus número frios, dão a dimensão trágica para a perda diária de vidas. Em 2017, foram registradas 412 mortes no trânsito em Sergipe, sendo 229 em acidentes de moto e 68 de carro. É quase uma morte em acidente de moto a cada 24 horas. No Brasil, a violência no trânsito matou mais de 35 mil pessoas em 2017. Desse número, 12.153 eram motociclistas e 8.187 motoristas. Essas são os dados mais recentes do Ministério da Saúde.
Relatório da Polícia Rodoviária Federal em Sergipe (PRF/SE) de 2018 indica que, em seis trechos considerados críticos, foram registrados 155 acidentes de carro e 151 de moto, sendo classificados como acidentes com lesões graves nesses trechos: 56 decorrentes de moto e 16 de carro. A reportagem incluiu na categoria ciclomotor e motoneta.

“O condutor desse tipo de veículo (moto) está exposto, não está dentro de um receptáculo, como os outros veículos. Naturalmente, quando acontece o acidente, ele está muito mais exposto a ter mais lesões graves e, até mesmo, vir a óbito”, afirma Daniel Argolo, chefe do Núcleo de Prevenção de Acidentes da PRF/SE.
Uma letalidade potencial somada à imprudência tirou a vida de Danila Santos, 16 anos. Ela estava sem capacete na garupa de uma moto, quando o condutor se desequilibrou e o seu corpo foi arremessado na pista da rodovia Camilo Calazans, em Estância, a 70 km de Aracaju. Danila sofreu traumatismo craniano e morreu em seguida. Hoje, sete anos após o acidente, a mãe de Danila ainda guarda as suas roupas e sapatos, uma forma que encontrou para estar perto de “uma parte sua” novamente.
Em 2018, o HUSE, o maior hospital de Sergipe, realizou 5.246 atendimentos para acidentes de motos e 743 para ocorrências com carro. Apenas no primeiro quadrimestre deste ano foram atendidos 1.812 motociclistas e 293 motoristas.
Robson Eufrasio, 35 anos, sofreu um acidente de moto em 2016. Desde então, foi submetido a duas cirurgias e, até hoje, volta a cada 45 dias ao Ambulatório de Retorno de Aracaju para avaliações médicas. Usa muleta e um fixador externo na altura da coxa da perna direita para colar o fêmur. Para Robson, o motociclista é mais vulnerável porque “o corpo é o parachoque do acidente quando está de moto.” Segundo ele, “basta estar a 10 km/h, você cai e se rala.”
Segundo a professora de enfermagem da Universidade Federal de Sergipe, Edilene Curvelo, lesões, escoriações, comprometimento da memória, linguagem e percepção, sintomas de depressão e ansiedade são sequelas físicas, comportamentais e cognitivas decorrentes de acidentes de moto. “O acidente de moto, embora tenha um grande número de lesões em membros superiores ou inferiores, também atinge a cabeça e pescoço, que é o trauma cranioencefálico. Essas lesões comprometem a qualidade de vida não só do condutor, mas também do passageiro”, afirma a professora.
Os fatores de riscos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para acidentes de motocicletas são: o não uso de capacete e a verificação adequada da sua qualidade, visto que qualquer implicação no equipamento aumenta o risco de acidentes cranianos e morte; direção sob efeito de álcool; velocidade excessiva; uso de drogas; falta de familiaridade ou experiências com motocicletas, entre outros.
O sub-comandante da Companhia de Polícia de Trânsito, tenente Oliveira, alerta que os equipamentos de proteção individual devem ser utilizado não só em competições, mas também em todas as ocasiões. “O equipamento mais comum que a gente vê é o capacete. E o resto do corpo? Teria que usar uma caneleira, joelheira, sapato adequado (botas).”
Segundo a Seguradora Líder, em 2018, as motos representavam 27% da frota nacional, mas tiveram impactos superiores aos demais veículos: 75% das indenizações do seguro DPVAT foram direcionados para vítimas de acidentes motociclísticos no Brasil. Em Sergipe, os seguros pagos em razão desse tipo de ocorrência chegou a 82%. A causa por invalidez permanente respondeu por 74% das indenizações pagas pelo seguro. Os dados revelam que as vítimas, em sua maioria, são jovens em idade economicamente ativa, entre 18 a 34 anos.

Capacete e redução de custos nos tratamentos médicos
Segundo a OMS, os custos de tratamentos agudos foram reduzidos entre 40% e 66% em pacientes que usavam capacetes. O equipamento utilizado corretamente não só reduz os custos, mas também os riscos de morte em 40%. Os riscos de lesões graves são reduzidas em 70% com o uso desse equipamento, de acordo com o Retrato da Segurança Viária, da AmBev.
Em 60 dos 75 municípios sergipanos a frota de moto, motoneta e ciclomotor é superior a de carro, segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito, em fevereiro de 2019. Um estudo da Confederação Nacional dos Municípios, de 2018, indica que o aumento da compra de moto revela, além da deficiência do transporte público, o resultado de uma política de facilidades de crédito, de prestações a preço baixo e de isenções e incentivos do Governo Federal ao setor. Também aponta para substituição, em particular nas regiões Norte e Nordeste, dos animais de tração( cavalo, jumento e burro) por motocicletas.
Produção da disciplina Laboratório de Jornalismo Integrado I - 2019.1
Repórter - Abel Serafim
Orientação - Professores: Josenildo Guerra, Cristian Góis e Eduardo Leite
* Correção: Ao contrário do informado inicialmente, foram registrados 16 acidentes decorrentes de acidentes de carro com lesões graves, e não 22.
Atualizada em 12 de junho de 2019, às 14h47.
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