“Hoje, eu odeio ensinar”
- Portal Contexto
- 24 de jul. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jul. de 2019
Nos seis primeiros meses de 2019, quase 300 professores da rede estadual em Sergipe já foram afastados por doenças que indicam a Síndrome de Burnout

Estresse, sobrecarga de trabalho, esgotamento físico e mental, frustração, vontade de sumir e até suicídio. É o fim! Viver se transformou em um inferno. Nessas condições, estão os profissionais acometidos pela Síndrome de Burnout, uma doença do mundo do trabalho. As causas são processos rotineiros de assédios, superexploração, cobranças desmedidas, baixos salários, péssimas condições de trabalho e falta de perspectivas.
Dados da Secretaria de Administração do Governo de Sergipe revelam que nos primeiros seis meses deste ano, 292 professores foram afastados das escolas estaduais por conta de doenças diretamente ligadas à Síndrome de Burnout. Hoje, são 63 professores com licença médica, sendo dez por estresse grave e transtorno de adaptação, outros 22 profissionais afastados por depressão e mais 31 por transtorno de pânico. Desse total, 99% dos professores são da educação básica.
Uma pesquisa da International Stress Management Association/Brasil revela que cerca de 30% dos profissionais brasileiros sofrem com a Síndrome de Burnout. Dados da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação denunciam que, no Brasil, essa síndrome é a terceira maior causa de afastamento de professores das salas de aula.

Maria Goretti Fernandes, professora da área da Saúde na Universidade Federal de Sergipe (UFS), lembra que, em 2006, reconheceu-se atingida pela síndrome. Com três trabalhos no setor privado, ela começava sua jornada de trabalho às 5 horas e só encerrava por volta da meia noite. Essa rotina levou Goretti a desenvolver um estresse crônico.
O curioso é que essa professora trabalhava, desde 2002, com saúde do trabalhador. “Tive depressão intensa e transtorno de ansiedade. No período de crise, no nível mais alto da síndrome, não tenho vontade de sair, ir ao cinema. Não consigo entrar na sala de aula. Não consigo ser eu mesma”, disse Goretti. Em 2018, ela ficou afastada seis meses, em licença médica, para realizar um tratamento que segue, mesmo depois de voltar ao trabalho.
SUICÍDIOS Nem sempre os profissionais conseguem superar os efeitos da Síndrome de Burnout. São vários os casos de suicídios de profissionais da saúde e da educação em que os relatos apontam para um violento caso de estresse. Em março deste ano, um médico em Aracaju, que trabalhava no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, teria cometido suicídio dentro do seu veículo. Há também casos envolvendo enfermeiras e auxiliares de enfermagem.
Um dos suicídios mais conhecidos em Sergipe foi o da professora da rede estadual Jucélia Almeida que, em 2016, depois de desenvolver um quadro depressivo e problemas cardíacos após o bloqueio de seu salário, cometeu suicídio. Em razão de suas cobranças para restabelecer a sua remuneração, ela passou a sofrer assédio moral. A professora deixou uma carta em que denunciava o descaso, as pressões, o estresse, a depressão e a negligência.
O psiquiatra Antônio Aragão diz que a Síndrome de Burnout se refere a uma exaustão prolongada e relacionada com a atividade ou ambiente profissional. Os sintomas mais recorrentes são: o cansaço extremo, tristeza, alterações no sono, dores no corpo e de cabeça, irritabilidade, falta de paciência, alterações da memória, dificuldades nos relacionamentos pessoais e o desinteresse pelo trabalho. “É preciso perceber e buscar ajuda o quanto antes”, alerta o médico.
Aragão informa que, em tese, qualquer profissional pode apresentar essa síndrome, mas ela acomete com mais frequência trabalhadores que têm relação direta e significativa na vida das outras pessoas como, médicos, enfermeiros, professores, bombeiros, etc. “Aquele que vive para o trabalho e possui níveis de exigência muito altos está mais propenso a desenvolver o Burnout”, afirmou o médico. A Organização Mundial da Saúde reconhece que essa síndrome é uma doença ocupacional, e que seu tratamento começa com o afastamento da atividade exercida.
AFASTAMENTO A professora Leila Moraes, diretora do Sindicato dos Professores da Redes Estadual e Municipal de Sergipe, mostra que a maior parte dos afastamentos dos docentes na Perícia Médica não é mais por problema ortopédicos, como ocorria alguns anos atrás. “Hoje, a maioria dos casos são relacionados a síndrome do pânico e a depressão”, disse.
Para Leila, existem vários fatores para o aumento dos afastamento, como a desvalorização profissional, a dificuldade do trabalho, a falta de incentivo a formação do professor, escolas insalubres, superlotação das salas de aula e a “industrialização do ensino”, a exemplo da pressão pelo Exame Nacional do Ensino Médio.
A diretora do sindicato avalia que os sintomas da Síndrome de Burnout ainda são muito subjugados, pois, o professor tenta se afastar, mas tem o pedido rejeitado pela perícia. Essa situação leva os advogados a entrar com ação judicial para que seja feito o encaminhamento para o tratamento necessário. “Nós reivindicamos que o Estado garanta o tratamento desses professores”, reforça Leila.

Ana Acácia Cardoso, professora da rede pública em Aracaju, depois de 23 anos de ensino, está hoje afastada de sala de aula. Foi diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada e Síndrome do Pânico. Em 2017, Ana teve uma de suas piores crises. Ela desenvolveu horror à sala de aula. Esgotada, passou a ter medo de ir a escola e foi remanejada para equipe pedagógica. “Hoje, eu odeio ensinar. Já desisti de vencer isso, já são dez anos de terapia”, desabafa Ana.
Ao longo do tempo, a professora teve alguns pedidos de licença negados pela perícia. “ Existem muitas interpretações dos médicos. Na perícia, eu não me lembro se fui atendida por um psicólogo, eram apenas médicos clínicos”, disse Ana Acácia.
Produção da disciplina Laboratório de Jornalismo Integrado I - 2019.1
Repórter - Caroline Rosa
Orientação - Professores: Josenildo Guerra, Cristian Góis e Eduardo Leite
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