Uma relação para além do gol
- Arthur Dias
- 4 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Por Ianna Karoline, Samara Letícia e Vivian Myllena

Compreender a relação do time do Confiança – ou, de maneira mais formal, da Associação Desportiva Confiança (ADC) – com os moradores do Bairro Industrial tem a ver com aceitar que estamos diante de um caso de paixão, de carinho e de lealdade recíprocos. Dito de outra maneira, é um clube que fala com a comunidade, a qual viu o time nascer e acompanha suas vitórias e derrotas; para que, hoje, seja apaixonada pelo Dragão, como é carinhosamente chamada a ADC.
São pessoas que viram suas próprias vidas se transformarem nessa relação. Caso, por exemplo, da graduanda em psicologia Larissa Cunha, de 24 anos. Para a jovem, o Confiança foi uma ponte entre ela e o seu pai. Eles acompanhavam os jogos de perto e comemoravam cada vitória como se fosse única. “Desde pequena, eu acompanhava meu pai nos jogos e, durante a pandemia, nós torcemos ainda mais. Era uma das nossas ligações.”
Tanto amor tem razão de ser. O clube azul e branco já nasceu grande e foi o primeiro time em Sergipe a construir seu próprio estádio, localizado em seu berço, o Bairro Industrial. De braços abertos para as pessoas ao seu redor, o campo abria as portas para as crianças brincarem e jogarem futebol aos sábados e domingos, o que acabou estreitando ainda mais os laços com a comunidade.
Carlos Cardoso, funcionário do Confiança e morador do Bairro Industrial há mais de 40 anos.
Foto: Ianna Mendonça
Essa é, aliás, uma das memórias vivas no coração de Carlos Cardoso, 65, residente do Bairro Industrial há mais de 40 anos. Ex-funcionário da fábrica que emprestou o nome ao time, e atual empregado da ADC, observou o time crescer e impactar positivamente a comunidade.
“É uma alegria só! Eu sou morador do bairro, trabalhei mais de 27 anos pelo Confiança e o time é motivo de felicidade para todos os torcedores do Dragão do Bairro Industrial. Isso é felicidade para nós.”
Logo no início, a equipe azulina era, na verdade, uma indústria de tecidos que abrigava diversos funcionários que moravam no próprio bairro. O surgimento de uma equipe esportiva, apoiada pelo dono da fábrica, Joaquim Sabino Ribeiro, trouxe fôlego para os trabalhadores.
Desde o início, por meio de um time de vôlei; depois, ao longo do ano de 1949, quando apostou no futebol, a marca do Confiança sempre foi a presença de trabalhadores nas equipes. Isso conectou ainda mais a sua força com a população ao redor, que se afeiçoou rapidamente.
O fato é que essa ligação ultrapassa as ruas do Bairro Industrial e invade as suas casas. Diversos torcedores relatam que o gigante operário trouxe união entre familiares e amigos, que encontraram mais um motivo para se conectar.
É o caso da estudante do ensino médio Ana Carla Santos, 17. Mesmo quando não assistia futebol, as partidas do time eram bons motivos para reunir a família e celebrar pelas ruas da periferia. Por crescer observando tantos amantes do Dragão, ela acredita que há muita beleza e carinho entre a torcida e o time. “É muito bonito ver os jogos e a torcida, o Confiança passou a ser uma ligação afetuosa por ser parte da minha família”, disse.
MORAR NO BAIRRO INDUSTRIAL É APRENDER A SER CONFIANÇA
Desde sua fundação, até os dias atuais, o Dragão já levantou 22 taças do Campeonato Sergipano e é o maior vencedor do estado no século XXI. Porém, uma das maiores alegrias vivenciadas pela torcida foi o acesso à Série B, conquistado em 2019.
O empreendedor André Santos, 37, conta que, quando o time subiu para a segunda divisão do Brasileiro, o acesso representou a maior conquista do clube e tem um significado especial para ele. De acordo com o jovem torcedor, sua relação com a ADC nasceu quando escutava os jogos da equipe na rádio, junto a seu pai e seu avô, ex-jogador do clube.
“Tenho conexão com o Confiança desde novo. Isso porque o time é a paixão do bairro, os antigos moradores influenciam os novos a torcer pelo Dragão. Morar no Bairro Industrial é aprender a ser Confiança”, enfatizou André.
Cleverton Costa, comerciante de 43 anos, também lembra do acesso à Série B com carinho, dia que foi celebrado por ele e toda a sua família. O torcedor lamenta a situação atual da ADC, que não fez uma campanha tão positiva este ano e terminou na 14ª posição da Série C, campeonato de acesso à segunda divisão. “O Confiança merecia ficar na Série B porque lutou muito para chegar aonde chegou. Assim como um operário, o time luta sempre e merece voltar para a Série B”.

Para João José da Conceição, 78, aposentado que torce para a equipe proletária há mais de 60 anos, o bairro influencia diretamente na escolha do time sergipano. “Aqui quase todo mundo é proletário, trabalhador. O bairro tem na base de 80% de torcedores do Confiança, porque já existe um costume. O Confiança vem do sangue”, declarou.
Apesar disso, a conexão entre o Bairro Industrial e o gigante azulino consegue ir além da comunidade que sempre esteve ali. O vendedor Cleidilson da Conceição, 37, por exemplo, mudou-se para a comunidade há pouco menos de sete anos, mas foi a partir da periferia e os laços criados nela que desenvolveu afeto pelo Confiança. “O time sempre demonstrou ser guerreiro, que busca, batalha e está sempre correndo atrás. Mesmo com as dificuldades, eles não desistem. Essa identificação de ‘time dos operários’ aproxima ainda mais a torcida”.
Atualmente, a ADC é um dos maiores clubes de futebol do estado sergipano. Contudo, não é pela quantidade de títulos e gols que os torcedores do Bairro Industrial têm um fascínio tão grande pelo time azul e branco.
A paixão, que surgiu na década de 90, com o empresário Sabino Ribeiro, vive nos corações de milhares de pessoas que moram no Industrial até os dias atuais. Um carinho que passa de geração para geração, transborda o bairro e faz com que, mesmo após 71 anos de existência, ainda haja diálogo com a comunidade, fazendo com que todos se envolvam com o Dragão do Bairro Industrial.
Para saber mais sobre o assunto, ouça o nosso podcast no Zona Contexto: “Confiança, uma história de amor e sucesso”, agora disponível no site.
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