Olhos atentos
- Josino Neto
- 25 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Por Eduardo Brito, Rossella Cecília e Sarah Lima
Foto: Eduardo Brito

DIÁRIO DE BORDO
O processo de apuração da reportagem sobre o pó de coque começou antes mesmo de chegar no povoado de Jatobá. Em grupo, colhemos toda e qualquer informação disponível de forma online: mapa de conflitos da fio cruz, entrevista com a pesquisadora Angélica Baganha sobre problemas de saúde causado pelo coque, o acordo entre o MPF e as empresas e estudos acadêmicos que evidenciaram esse conflito.
Lemos, relemos, grifamos, questionamos e, em meio ao volume de informações encontradas ou não, mantivemos firme a nossa vontade de entender quais histórias estavam escondidas em um povoado de 92,268 km² cercado por empreendimentos extrativistas energéticos. Ao chegar em campo, não tínhamos dimensão do que nos esperava. Povoado pequeno, empresas multinacionais, pouco retorno de “fontes oficiais” e o medo das pessoas em reclamar de um particulado [pó de coque] já comprovado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) como potencial cancerígeno.
Na universidade, aprendemos que o Jornalismo dentre tantas funções sociais, serve para esclarecer alguns cenários. Esta pauta exigiu isso. E atendemos esse chamado dentro de alguns limites. A vontade era ordenar todas as informações possíveis e montar esse quebra cabeça. Porém não conseguimos respostas das empresas envolvidas, apesar das sucessivas tentativas de entrar em contato.
METODOLOGIA DE APURAÇÃO
Foi necessário um mapeamento das informações para a construção da reportagem que aborda a relação conflituosa entre empresas no único terminal marítimo do estado responsáveis pelo armazenamento e transporte de um particulado [coque] que contém elementos comprovadamente cancerígenos e um povoado pequeno sem representação oficial.
As informações foram separadas em: o que diz o acordo entre o MPF, as empresas e a Adema; o cumprimento ou não das condicionantes; o dia a dia dos moradores e suas perspectivas em relação ao pó de coque; as posições de órgãos municipais e estaduais; o que dizem as figuras de liderança do povoado, os estudos e relatórios ambientais, as legislações ambientais regionais e nacionais e fontes na área da química, medicina e da engenharia de petróleo.
Todas essas “coletas” de informação funcionaram a partir de entrevistas, leitura de relatórios e de documentos e no conjunto das tantas entrevistas, ocorreu algo novo na experiência laboratorial da equipe: a entrevista em off. Em reportagens investigativas, como a esta, a entrevista em “off” é uma tática de abordagem usada para se aproximar de pessoas que estão envolvidas na problemática e que por alguma razão não querem se identificar. O “Off” vem do inglês "Off the record" e tem dois significados, o literal, “fora dos registros” e o mais subjetivo, a confiança de se despir para um desconhecido as dores profundas que te atravessam. É o processo de organizar, catalogar e finalmente falar onde dói. Para nós, restou a escuta atenta, sem qualquer interferência na construção dos pensamentos. E no processo de edição a dimensão ética nos atravessou: Publicamos ou não? É realmente preciso identificarmos as fontes? De qualquer forma, os fatos estavam dados.
Para um reportagem são acionadas as ‘fontes’ que se dividem em quatro mundos: aquelas que têm propriedade intelectual para abordar o assunto [especializadas], respondem em nome de algo ou alguém [oficiais], as que vivem a situação e registram o fato por meio do relato [testemunhais] e as informações registradas em livros e documentos [documentais] . Sendo a segunda, no nosso caso, uma parte essencial do processo de apuração para entender a fundo o conflito que se faz presente há mais de três décadas, mas como evidenciado algumas vezes, não obtivemos respostas. Um dos impactos dessa não-resposta é a formação de “buracos na informação”, que é quando não se tem informações suficientes para construir material contextualizado e qualificado, de forma mais simples: saímos com perguntas que renderiam outras tantas reportagens.
A solução para isso foi compartilhar algumas de nossas inquietações:
O acordo entre o Ministério Público Federal, as empresas do Terminal Marítimo Inácio Barbosa e a Adema, foi a melhor opção? Visto as ainda recorrentes reclamações por parte da comunidade.
Por que o padrão nacional é que a própria empresa faça seus relatórios de impacto ambiental (RIMAS)? Esse relatório não deveria ser construído de forma coletiva? Abarcando não somente o órgão estatal responsável pela licença e monitoramento, mas também a comunidade que convive com o empreendimento?
Apesar da responsabilidade da tutoria do Meio Ambiente ser do MPF, poderia existir alguma outra entidade capaz de entrar como parte no acordo, defendendo ainda mais os interesses da população local?
Por que os moradores temem falar do assunto?
O SILÊNCIO
Outro fenômeno encontrado com recorrência nesta reportagem foi o silêncio. E inevitavelmente, tivemos de catalogá-lo: havia o silêncio pelo medo de possíveis retaliações, o da não vontade de envolvimento e o desconhecimento da situação. Apesar de almejar palavras ditas, claras e diretas, aprendemos que o silêncio também é uma resposta, e infelizmente, a mais dura de todas. Aquela que te acompanha durante um tempo. Quando dita, a palavra toma forma, nome, endereço e direção. Quando não, abre espaço para diversas possibilidades do “achar” e de nós na garganta difíceis de serem desfeitos.
QUEM PROCURAMOS
Desde a pauta até o produto final, o caminho é árduo, permeado por escuta, pesquisa, olhos atentos e, principalmente, estar na rua. Para evidenciar como construímos a narrativa, catalogamos as fontes que nos responderam.
Oficiais do município (Barra dos Coqueiros) | Oficiais do estado | Sociedade Civil | Documentação |
Secretário da Secretaria Especial de Jatobá - Cleanderson Santana | Gerente da Vigilância Ambiental da Secretaria da Saúde do Estado - Alexandre Xavier Bueno | Ex-presidente da Associação de Moradores - Daniel Pereira | Relatório - Mapa de Conflitos da Fundação Oswaldo Cruz |
Enfermeira da UBS - Yasmin Ribeiro | Técnico da Adema responsável pela licença de permanência das empresas no TMIB - Antonelle de Morais | Atual Presidente da Associação de Moradores - Robson Valido | Pesquisa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) - Thayná Albuquerque |
Coordenadora Geral - Noêmia Ferreira | Cerca de 30 moradores que não quiseram ser identificados | Pesquisa de Pós-Graduação para Doutorado em Geografia - Luíz André Maia | |
Coordenadora Pedagógica - Zenaide Fontes | Filha da Cícera Lúcia, também ex-presidente da Associação de Moradores - Thaiane Gabriela | Resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) Nº 003, de 28 de junho de 1990 | |
Secretário da Educação - Orlando Apóstolo | Vendedor e morador - José Marcelo | Linha do tempo do ex-presidente da Associação de Moradores, Daniel Pereira | |
Secretária Executiva da Secretaria da Saúde | Morador - Marcos Antônio | 3 abaixo-assinados com assinatura de centenas de moradores, que Daniel relata ser de 2009 | |
Coordenadora de Vigilância Epidemiológica - Silvanna Carla Uanús | Morador - Severino Santos | Dois termos de Audiências Públicas nos anos de 2009 e 2010 | |
Coordenadora de Vigilância Sanitária - Tatyane Andrade | Professor de Química Industrial do Instituto Federal de Sergipe (IFS) - Silvanito Alves Barbosa | Avaliação do Instituto Tecnológico e de Pesquisa no Estado de Sergipe (ITPS) sobre a deposição de coque em áreas residenciais do Povoado de Jatobá - Barra dos Coqueiros - Sergipe | |
Coordenadora de Vigilância Ambiental - Gláucia Valéria Alves | Professor de Engenharia de Petróleo da Universidade Federal de Sergipe (UFS) - Humberto Lucena | Anais do XII Congresso Brasileiro de Engenharia de Produção (Conbrepro) | |
Coordenadora de Atenção Básica - Larissa Bezerra Silva | Pesquisadora na área de Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) - Thayná Albuquerque | Autos do processo em âmbito Federal | |
Secretária da Saúde da Barra dos Coqueiros - Elissonia Moura | Professor de Direito Constitucional da Universidade Tiradentes (UNIT) - Teodomiro Nelson | ||
Agente de saúde da UBS Gileno de Jesus de Jatobá | Advogada Ambiental - Robéria Souza | ||
Viúva e cunhada do Gerson Santana, funcionário do TMIB por 20 anos que faleceu de câncer |
O QUE LEVAMOS PARA CASA
No último encontro com Daniel Pereira, o ex-presidente da associação de moradores, uma frase dita por ele ecoou por um tempo em nossas mentes: “Não abandone o povo”. E aquele foi um dos momentos em que refletimos o propósito e o impacto da nossa futura profissão nas vidas das pessoas. Dar vida a uma pauta hiperlocal exigiu um nível mais profundo de proximidade com o povoado, escuta atenta e a curiosidade de entender os fatos dispostos na realidade. E dentre os questionamentos acima, outro ainda mais contundente ainda nos atravessa [e certamente nos acompanhará por um tempo]: Por que isso não é noticiado?
Como um presente pela primeira experiência laboratorial em uma reportagem investigativa e de fôlego, levamos algumas lições, que aos poucos incorporamos como ‘dogmas jornalísticos’: para que se alcance informação profunda e contextualizada é preciso olhar para onde a ‘grande mídia’ não olha, é preciso ir além do ‘banco oficial’ de informações, é preciso estar presente e preparado para o que a comunidade tem a dizer e finalmente, a coragem de olhar nos olhos de quem sofre todos os dias e o comprometimento de que todos esses relatos serão transformados em informação.
Nós não acreditamos em um Jornalismo que “dá a voz” para alguém. A comunidade de Jatobá já tinha voz antes mesmo da equipe desta reportagem pautar este assunto. O que fizemos foi ordenar todas as informações e relatos que apuramos, ouvimos e absorvemos durante esses dias de imersão no povoado. Acreditamos em um Jornalismo que escuta essas vozes e as transforma em narrativas, que traz à luz o que estava nas sombras, que também chora as lágrimas dessas pessoas e transcreve essa jornada em busca de justiça em palavras carregadas de força e coragem.
À Daniel e a todos os moradores do povoado de Jatobá que compartilharam suas histórias, jamais te esqueceremos!
A coragem de vocês nos inspiraram, obrigada pela confiança.





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