Conexão com a própria natureza

Por Beatrize Oliveira

Dos chás ao uso de coletores menstruais, a ginecologia natural incentiva o autoconhecimento e o resgate de saberes ancestrais nos cuidados com a saúde feminina

Quem nunca tratou uma cólica menstrual com uma compressa quente ou tomando um chá de camomila? Talvez você nem tenha parado para pensar na origem desses ensinamentos passados pela sua mãe ou avó, mas o uso de ervas e receitas caseiras para curar enfermidades e desconfortos de ordem ginecológica são uma técnica ancestral.

 

Historicamente, as mulheres que exerciam a medicina de forma autônoma e natural eram conhecidas como curandeiras. Elas aprendiam umas com as outras e passavam seus conhecimentos oralmente e de forma horizontal, o que possibilitava a disseminação desses saberes. Com o avanço da medicina moderna, os cuidados naturais desenvolvidos por mulheres foram cada vez mais deixados de lado, dando espaço para as novas técnicas alopáticas.

 

Entre as contribuições da ginecologia contemporânea, a descoberta e cura de patologias e a criação de pílulas anticoncepcionais se destacam. Porém, é necessário reconhecer também uma mudança drástica na percepção do feminino, como se as mulheres não fossem ensinadas nem estimuladas a observar, tocar, cuidar e entender o próprio corpo, o que resulta na falta de conhecimento dos ciclos, a visão da menstruação como um tabu e a medicalização compulsória.

 

No entanto, um movimento que se contrapõe a essa realidade tem ganhado cada vez mais força e adeptas: a ginecologia natural e autônoma, que preserva e promove os cuidados ancestrais e valoriza a independência da mulher. Essa abordagem compreende a saúde feminina de forma integral, o que engloba cuidados físicos e emocionais, propõe a quebra de padrões criados pela medicina tradicional, e pretende transformar a visão que as mulheres têm sobre o próprio corpo.

Ginecologia natural e autonomia feminina

  • Útero - Toque as pontas dos seus polegares e junte os indicadores, formando um triângulo invertido com as mãos. Agora posicione esse triângulo abaixo do umbigo, muito provavelmente seu útero está localizado na parte inferior desse triângulo. É o principal órgão do sistema reprodutor feminino, responsável pela menstruação, gestação e parto.

  • Colo do útero – Localizado no fundo do canal vaginal, é a porção inferior do útero, possui um orifício que permite a saída da menstruação e a entrada de espermatozoides.

  • Vagina – É o canal que comunica o meio externo com o útero, sua função é dar saída ao fluxo menstrual, receber o pênis durante a relação sexual e formar o canal do parto.

  • Tuba uterina – Responsável por transportar os óvulos que romperam na superfície do ovário até a cavidade do útero. É nelas que ocorre a fecundação.

  • Ovário – O órgão responsável por produzir o óvulo, normalmente a mulher possui dois ovários, um de cada lado do útero.

  • Endométrio – É a camada interna do útero, a parte que descama e vira sangue no período menstrual, e onde ocorre a fixação do óvulo fecundado.

Mulheres cíclicas

O corpo feminino funciona em forma de ciclos, que duram normalmente 28 dias, mas que pode oscilar entre 21 e 35 dias. Tem início no primeiro dia de menstruação e termina quando a menstruação do mês seguinte se inicia, e isso significa que todo mês a mulher vai passar por quatro fases distintas.

Todo mês o corpo se prepara para uma gestação, e quando ela não ocorre a camada interna do útero, o endométrio, se descama e vira sangue, marcando o período menstrual. Esta fase é caracterizada pelo aumento da umidade na região da vagina, pelo desequilíbrio do pH do tecido vaginal e pelo aumento da descamação da área, o que torna o ambiente propício à proliferação de vírus, bactérias e fungos.

 

A ovulação coincide com o pico do estrogênio, hormônio que nos deixa extrovertidas e mais dispostas, e também propicia vínculos de intimidade, de empatia e de satisfação. Embora o óvulo só sobreviva em média 24 horas no corpo da mulher, o período fértil pode durar 3 dias, pois é quando o colo uterino se abre para possivelmente receber os espermatozoides, e se ocorrer ejaculação no canal vaginal nesse período, é possível que os espermatozoides sobrevivam até o dia da ovulação, possibilitando a fecundação.

Fazendo as pazes com a menstruação

Apesar de ser um acontecimento fisiológico que está presente na vida da maior parcela da população mundial, a menstruação ainda é um dos principais motivos de constrangimento feminino. Pelo menos é o que mostra a pesquisa realizada pela Sempre Livre, marca da Johnson & Johnson, em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria. A análise contou com a opinião de 1,5 mil mulheres, entre 14 e 24 anos, residentes no Brasil, Índia, África do Sul, Filipinas e Argentina, e constatou que 54% delas sabiam nada ou quase nada sobre o tema no momento da primeira menstruação. A pesquisa também indicou que 39% das mulheres pedem um absorvente emprestado como se fosse um segredo e muitas tentam esconder de alguma forma que estão menstruadas.

 

A desinformação também contribui para uma relação problemática com o corpo. Para a estudante de turismo Natali Yone, de 20 anos, a falta de diálogo e instrução da família transformou a primeira menstruação em motivo de muita vergonha: “eu lembro que o primeiro absorvente que eu comprei foi escondido, e eu contei para os meus pais que tinha menstruado através de uma carta”, relata.

 

Em um contexto geral, as mulheres foram muito desvalorizadas e segregadas por conta da menstruação. Segundo a especialista em ginecologia natural, Silvia Anjos, historicamente as mulheres eram vistas como figura de procriação, e o sangue menstrual simbolizava que elas não estavam carregando um herdeiro, o que era motivo de muita frustração. Na Idade Média, acreditava-se que o sangue era tóxico e venenoso, e no ideário religioso, mulheres que estavam menstruando não deveriam ser tocadas, tão pouco participar de cerimônias sagradas.

 

Na ginecologia natural muitos processos de cura acontecem a partir da reconciliação com a menstruação, o que antes era visto como desequilíbrio agora é sinônimo de força, e reconhecer o sangue menstrual como algo sagrado, e não mais sujo e incômodo, é uma grande transformação social.

A revolução em forma de copinho

Nesse novo universo de aceitação dos fluídos e autoconhecimento, um objeto tem virado grande aliado das mulheres: o coletor menstrual. Trata-se de um copinho de silicone hipoalergênico e antibacteriano, totalmente maleável, que é inserido na vagina e coleta o sangue menstrual. Ele representa uma alternativa aos absorventes descartáveis, feitos de plástico ou algodão alvejado com aromas sintéticos, que são responsáveis por causar mau cheiro e por deixar a região íntima abafada, favorecendo a proliferação de microrganismos, como fungos e bactérias.

 

A ginecologista Jacqueline Mazotti garante que os coletores são uma opção segura e higiênica, quando usados adequadamente. Os cuidados são instruídos normalmente na embalagem do produto, e incluem lavar bem as mãos quando for manipulá-lo, higienizar com água quente no início do ciclo, não passar mais de 12 horas com o copinho, e lavar com água e sabonete neutro sempre que esvaziar e for recolocar.

 

À primeira vista pode parecer estranho utilizar um copinho para coletar o sangue menstrual, mas o coletor tem se popularizado cada vez mais, e entre suas vantagens está o fato de ser prático, econômico e sustentável. A estudante de arquitetura Leticia Santana, 20 anos, usa o coletor há apenas 4 meses, e garante que, apesar da insegurança inicial, tem se surpreendido bastante com o produto.

 

O coletor é feito de um material bem flexível, para colocar é necessário escolher uma dobra e uma posição confortável, depois é só introduzir no canal vaginal que lá dentro ele se abre e forma vácuo, o que garante que o sangue que sai do colo do útero vá direto para o copinho.

 

O movimento de autocuidado e auto percepção surgiu e se intensificou na América Latina, graças à forte contribuição dos saberes indígenas e das “raizeiras”, mulheres guardiãs da medicina popular. No México, ganha força a ginecologia autônoma, que se utiliza de todas as premissas e técnicas naturais, aliadas a uma influência feminista, que tem como finalidade promover a autonomia, ensinando a mulher a reconhecer seus ciclos e fazer o autoexame.

 

De acordo com Silvia Anjos, psicóloga terapeuta transpessoal e especialista facilitadora da ginecologia natural, esse modelo de medicina alternativa tem como intuito a promoção de cuidados utilizando métodos naturais, mas não só isso, o tratamento vai além do uso de ervas, é um acolhimento integral, um entendimento das motivações emocionais que podem estar contribuindo para o possível adoecimento, entendendo e respeitando as particularidades de cada mulher.

Para a terapeuta, a ginecologia natural e autônoma tem dado conta de algumas demandas negligenciadas pela medicina convencional, como a singularização do cuidado. A ginecologia alopática, por vezes, distancia o profissional do paciente, e não tem tempo, nem interesse, de se aprofundar para além da questão física: “é um protocolo, onde para essa doença vai ser esse remédio, sem observar todo o histórico dessa pessoa”, afirma.

Para a ginecologista e obstetra Jacqueline Mazotti, a busca por terapias alternativas e tratamentos naturais tem aumentado, o que representa uma mudança no perfil das pacientes. Para ela, é fundamental que o profissional incorpore esses tratamentos à sua atuação clínica: “a gente pode usar os tratamentos naturais como complementação da alopatia”, afirma. 

A auto-observação auxilia diretamente na promoção da saúde, quando uma mulher conhece seu corpo e tem autonomia e responsabilidade sobre ele, ela consegue entender melhor o processo de doença, além de reconhecer os primeiros sinais de que algo está errado. “Se uma mulher faz o autoexame de mama, ela reconhece quando tem algo diferente, se ela observa seus corrimentos, ela identifica quando é algo normal e quando é patológico”, afirma a ginecologista.

A importância do autoconhecimento

Recentemente, uma pesquisa realizada pela YouGov e divulgada pelo tabloide britânico The Sun, revelou que entre os 2.010 homens e mulheres entrevistados, 45% não sabia a localização exata da vagina. Pode parecer atípico, mas é mais comum do que parece. Segundo a médica Jacqueline Mazotti, o corpo feminino ainda carrega muitos tabus, o que resulta em mulheres que não conhecem sua própria anatomia, “muitas vezes eu me deparo no consultório com pessoas que acreditam que a urina e o bebê saem pelo mesmo orifício”, relata.

 

A maior premissa da ginecologia natural é o autoconhecimento, quando uma mulher não conhece seu corpo, não entende os seus ciclos e processos, ela fica mais suscetível a técnicas agressivas e medicalização excessiva, “se eu não conheço meu próprio corpo, qualquer pessoa que chegar de fora para falar sobre o que é ele eu vou aceitar”, comenta a terapeuta Silvia Anjos.

  Entenda melhor o aparelho reprodutor feminino

Se usado de forma correta o copinho fica imperceptível na vagina e, além de não incomodar, possibilita maior autonomia para mulher, que pode praticar esportes e ir à praia, por exemplo. O uso também proporciona uma relação mais íntima com fluxo, pois a mulher passa a ter contato direto com seu sangue, o que favorece a reconciliação com a menstruação.

 

O coletor menstrual é regulamentado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde 2017. Atualmente existem diversas marcas e modelos disponíveis no mercado e, para escolher, deve-se levar em conta a intensidade do fluxo, a idade da mulher e a quantidade de filhos. Mariana Assis, estudante de jornalismo de 21 anos, optou pelo coletor após o nascimento de sua filha, e afirma que paciência e conhecimento de si são fundamentais para a adaptação.

Uma vida sem hormônios

Há quem diga que a pílula anticoncepcional marcou a emancipação feminina, mas apesar de inovadora essa criação também é bastante controversa, e o que um dia foi sinônimo de liberdade, hoje pode ter se tornado uma prisão, pois se trata de uma combinação de hormônios sintéticos que inibe a ovulação, e consequentemente todos os movimentos uterinos naturais.

 

Atualmente se sabe que os contraceptivos orais apresentam diversos riscos à saúde da mulher. A ginecologista Jacqueline Mazzoti considera seu uso desvantajoso, “ele pode aumentar o risco de trombose, desencadear tumores de mama, fora a retenção de líquido e queda da libido”. De acordo com a especialista em ginecologia natural Silvia Anjos, a pílula acabou virando solução para todo e qualquer problema feminino, e afirma que mesmo as mulheres portadoras de patologias não precisam viver reféns do anticoncepcional, “ele não representa uma cura, ele estagna os movimentos uterinos, então você está apenas estabilizando os sintomas”.

 

As formas alternativas e não hormonais de contracepção englobam o uso da tradicional camisinha, o único método que previne gestação e doenças sexualmente transmissíveis, o DIU (Dispositivo Intrauterino) de cobre, que libera uma pequena quantidade de cobre no útero que impede que os espermatozoides fertilizem os óvulos, e os métodos naturais de percepção da fertilidade.

 

A estudante de jornalismo Mariana Assis, de 21 anos, começou a buscar informações acerca dos métodos contraceptivos naturais depois de uma gestação não planejada. Ela engravidou devido à falha do preservativo, e como na época não tinha conhecimento sobre seu período fértil, não buscou um método contraceptivo emergencial: “antigamente eu não acompanhava meu ciclo, usava só camisinha e achava que já estava tudo bem, e não estava, você tem que entender seu corpo porque acidentes acontecem”, conta.

 

Atualmente, além da camisinha, Mariana faz auto-gestão da sua fertilidade, acompanha as fases do seu ciclo menstrual e identifica quando está ovulando, e isso não tem a ver com tabelinha, como muitas pessoas acham. A auto percepção da fertilidade é um processo que envolve conhecimento e observação direta do corpo, e pode ser feito através da análise do muco cervical, da medição da temperatura basal, e da observação do colo do útero.

 

O muco cervical é uma secreção produzida pelo colo do útero, que muitas vezes é confundida com um corrimento, mas sua função é de limpeza do canal vaginal e não possui odor. A depender da fase do ciclo o muco muda de cor e consistência, apresentando aspecto grosso no período não fértil e pegajoso no período fértil. É necessário introduzir os dedos ou um espéculo no interior do canal vaginal e analisar a secreção, buscando perceber claramente as mudanças progressivas que ocorrem. 

 

A temperatura basal é a temperatura corporal que deve ser medida diariamente, no mesmo horário e local, de preferência boca ou vagina. A ovulação causa um aumento de 0,3 a 0,5° Celsius, e quando aferida de forma rigorosa e habitual torna possível identificar a alteração. Já a observação do colo do útero consiste em verificar a altura e abertura do orifício do colo, próximo dos dias férteis o colo do útero está mais alto e o orifício aberto. A observação pode ser feita através do toque ou do autoexame com espéculo.

As plantas e seu poder de cura

O uso de elementos da natureza para fins terapêuticos é uma prática ancestral, e mesmo após o surgimento da medicina se manteve hegemônica em muitas populações isoladas, e também coexistindo nos grandes centros. É um conhecimento sociocultural antigo, que conecta o ser humano à natureza, relacionando a saúde das populações que se utilizam das plantas com a saúde ambiental.

 

De acordo com a bióloga especialista em fitoterapia Ingrid Guimarães, o uso de plantas é muito comum devido ao fácil acesso. Atualmente, essa ciência até então empírica, tem ganhado respaldo científico, e já existem muitas plantas que possuem sua eficácia terapêutica comprovada pela Organização Mundial da Saúde, e no Brasil pelo SUS.

 

Segundo Ingrid, a principal questão que envolve o reconhecimento da fitoterapia são as relações de poder e interesse econômico, pois o indivíduo que faz uso de ervas não vai se tornar um possível consumidor de alopáticos, o que não é do interesse das indústrias farmacêuticas “existe uma disputa pelo controle do corpo, e o médico é o profissional reconhecido institucionalmente como aquele que detém o controle dos processos de cura e doença, e não o indivíduo”, explica.

 

A ginecologia natural prioriza o uso de plantas medicinais como forma de promover a saúde e a autonomia feminina, prezando a conexão com o corpo e o entendimento e responsabilidade com os processos de adoecimento. As principais formas de utilização de ervas para tratamentos são: a ingestão de chás, os banhos de assento e a vaporização do útero.

 

Foi a partir de um quadro de candidíase de repetição, que Jhullya Helary, 22 anos, decidiu abrir mão dos remédios alopáticos e investir em métodos naturais, “estava cansada de tanto remédio, de tanta pomada, estava afetando minha autoestima de ponta a ponta, não tinha mais relações sexuais”, desabafa. Ela conta que trocou os cosméticos íntimos por lavagem diária com ervas, como camomila, e quando tem incômodos como a candidíase faz vaporização, que consiste em ferver água, colocar num recipiente que retenha calor, adicionar ervas terapêuticas e depois se acocorar em cima do preparado e deixar o corpo absorver o vapor.

 

Mas o uso de plantas requer cautela, é necessário um conhecimento prévio e a orientação de algum profissional, como alerta a bióloga, “a gente tem que buscar pessoas que conheçam as ervas, aqui nos mercados nos temos o erveiros e as erveiras [...] uma planta usada de forma inadequada pode ser ou perigosa ou ineficaz, é importante entender a posologia, o modo e tempo de uso”.

 

Conheça algumas ervas e seus usos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A ginecologia natural é cientificamente reconhecida?

Segundo a terapeuta Silvia Anjos, a ginecologia natural é reconhecida empiricamente pelos seus resultados e poder de cura, e a temática está aos poucos sendo objeto de pesquisa nas universidades. No caso da fitoterapia, a comprovação cientifica tem sido cada vez maior, no Brasil o SUS possui uma Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao Sistema Único de Saúde (Renisus) que tem a finalidade de orientar estudos.

 

A medicina natural também não deve ser vista como única alternativa ou forma de tratamento, é preciso observar o corpo adoecido por um tempo, se ele não reagir aos métodos naturais é necessário buscar uma alternativa alopática, “existem agravamentos da saúde que a medicina convencional tem procedimentos fantásticos, e ela salva, é importante reconhecer”, declara Silvia.

 

Reportagem produzida para a disciplina Jornalismo Digital. Semestre 2018/2.

Orientação: Profª Messiluce Hansen. 

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